Justiça / Investigação
Gaeco cita 29 prefeituras de MS em apuração sobre contratos de livros
Operação Gutenberg analisa documentos, pagamentos e conversas ligados à Editora Avante; esquema suspeito teria movimentado mais de R$ 27 milhões
17/07/2026
20:00
CE
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O procedimento investigatório criminal da Operação Gutenberg menciona 29 prefeituras de Mato Grosso do Sul em contratos, planilhas, relatórios bancários, documentos e conversas relacionadas à atuação da Editora Avante. A apuração investiga a suspeita de uso de contratos de livros paradidáticos para desvio de recursos públicos e pagamento de vantagens indevidas.
Conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), a investigação aponta que o suposto esquema teria movimentado mais de R$ 27 milhões. As referências aos municípios aparecem ao longo das 472 páginas do procedimento, em contextos que incluem contratações concluídas, propostas comerciais, pagamentos, tentativas de negociação e articulações com agentes públicos.
A maior parte das menções está concentrada em 2022, ano em que aparecem registros relacionados a 26 das 29 administrações municipais. As exceções são Caarapó, citada em documento referente a 2020; Ladário, com registros de 2022 e 2023; e Deodápolis, mencionada em material de 2025.
A inclusão de uma prefeitura ou de um agente político no procedimento não significa, por si só, participação em irregularidades. Em alguns casos, os nomes aparecem apenas em conversas, propostas, planilhas internas ou tentativas de aproximação feitas pelos investigados.
Entre os contratos detalhados na abertura da investigação está o firmado pela Prefeitura de Miranda, no valor de R$ 1.044.355, para a compra de livros paradidáticos por inexigibilidade de licitação.
A contratação de Miranda foi o ponto inicial da apuração, depois que o Gaeco recebeu documentos relacionados ao negócio realizado com a Editora Avante. Na época, o município era administrado pelo então prefeito Fábio Florença.
Outro contrato citado envolve a Prefeitura de Ivinhema, inicialmente no valor de R$ 586.862,50. Um aditivo de R$ 287.267,50 elevou o montante para R$ 874.130.
Em Ladário, o contrato mencionado no procedimento alcançou R$ 459.286, também por inexigibilidade de licitação.
Campo Grande aparece no procedimento por causa de uma apuração anterior relacionada à Editora Alvorada, envolvendo contratos de aproximadamente R$ 5,66 milhões. O caso foi utilizado como referência na análise das atividades atribuídas à Editora Avante.
Outros municípios aparecem em relatórios bancários, movimentações financeiras e documentos anexados ao procedimento. Entre eles estão Bonito, Angélica, Douradina, Itaporã e Inocência.
Segundo o levantamento, essas administrações realizaram pagamentos à editora ou tiveram seus nomes registrados nas análises financeiras conduzidas durante a investigação.
Dourados também é citada em documentos reunidos pelo Gaeco, mas não aparece como contratante da Editora Avante no principal núcleo investigado.
As referências têm níveis distintos de envolvimento documental. Algumas indicam contratos efetivamente assinados, enquanto outras tratam apenas de contatos comerciais, apresentações de propostas ou conversas entre os investigados.
O levantamento relaciona as prefeituras de Amambai, Anaurilândia, Angélica, Batayporã, Bela Vista, Bonito, Caarapó, Campo Grande, Cassilândia, Deodápolis, Dois Irmãos do Buriti, Douradina, Dourados, Fátima do Sul, Iguatemi, Inocência, Itaporã, Ivinhema, Jardim, Japorã, Ladário, Miranda, Nova Alvorada do Sul, Porto Murtinho, Rio Negro, Rochedo, Santa Rita do Pardo, São Gabriel do Oeste e Três Lagoas.
Em Campo Grande, a administração municipal mudou de comando durante 2022. Marquinhos Trad deixou a prefeitura no início de abril daquele ano para disputar o governo estadual, e a então vice-prefeita Adriane Lopes assumiu o cargo.
Como as principais tratativas descritas no procedimento teriam ocorrido após a mudança, Adriane Lopes era a prefeita durante o período central analisado pelos investigadores.
O relatório também registra conversas em que investigados mencionam pelo menos oito agentes políticos de Mato Grosso do Sul durante tratativas relacionadas à venda de materiais paradidáticos para prefeituras.
Entre os nomes citados estão o vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha (Republicanos); o deputado federal Dagoberto Nogueira (PP); os deputados estaduais Paulo Corrêa (PL), Mara Caseiro (PL), Jamilson Name (PP) e Lidio Lopes (Avante); o vereador Herculano Borges (Republicanos); e a ex-deputada federal Rose Modesto (União Brasil).
Os diálogos teriam ocorrido entre o ex-coordenador da Coordenadoria de Regulação e Assistência do Estado (CRA), Ed Carlos Britto Burgatt, e o advogado Gabriel Taquino de Paula, ambos presos durante a operação.
Em uma mensagem de julho de 2022, Ed Carlos afirma que teria uma reunião com um assessor de Barbosinha e menciona a possibilidade de atendimento a “10 municípios” com materiais da editora.
Em outro diálogo reproduzido no relatório, Gabriel Taquino escreve: “Marca com Paulo Corrêa para nos ajudar a fazer dinheiro”. Em outra conversa, Ed Carlos afirma que iria “alinhar com Jamilson” e buscar apoio de Paulo Corrêa.
Dagoberto Nogueira é mencionado em uma conversa sobre uma viagem a Paranaíba, enquanto Lidio Lopes aparece em uma mensagem na qual um dos investigados afirma estar na residência da prefeita Adriane Lopes durante negociações.
A simples menção dos nomes em diálogos interceptados não representa comprovação de participação no esquema. A apuração deverá definir se houve atuação efetiva, conhecimento das negociações ou responsabilidade penal de cada pessoa citada.

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