Campo Grande (MS), Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

Economia / Investimentos

MS aposta em infraestrutura para atrair empresas após fim dos incentivos fiscais

Com reforma tributária, Estado pretende reforçar estradas, serviços públicos e industrialização de grãos, biocombustíveis e celulose

16/07/2026

12:30

DA REDAÇÃO

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Mato Grosso do Sul deverá concentrar esforços em infraestrutura, logística e qualidade dos serviços públicos para continuar atraindo empresas após o fim gradual dos incentivos fiscais estaduais. A mudança será provocada pela reforma tributária, que prevê a redução dos benefícios a partir de 2029 e a extinção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em dezembro de 2032.

A avaliação é do secretário estadual de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez, que considera a infraestrutura um dos principais diferenciais na futura disputa por investimentos privados. Sem a possibilidade de oferecer reduções de ICMS, os estados precisarão apresentar boas rodovias, moradia, saúde, educação, segurança e mão de obra qualificada.

Segundo o secretário, o novo modelo colocará as unidades da Federação em condições tributárias mais próximas. Nesse cenário, cada estado terá de explorar suas vantagens econômicas e produtivas para convencer empresas a instalar fábricas, centros de distribuição e outras operações.

Em Mato Grosso do Sul, a estratégia deverá priorizar setores nos quais o Estado já possui forte presença, como produção de grãos, pecuária, celulose e biocombustíveis.

Industrialização deverá ganhar mais espaço

Para Rodrigo Perez, um dos caminhos será ampliar o processamento das matérias-primas produzidas em território sul-mato-grossense. A proposta é evitar que grãos e outros produtos deixem o Estado apenas em sua forma primária, sem agregar valor à economia local.

Entre os setores considerados estratégicos estão as indústrias de óleos e derivados da soja, usinas de etanol de milho e cana-de-açúcar e fábricas de produtos destinados à nutrição animal.

Um dos exemplos é o DDG, ingrediente produzido a partir dos resíduos do milho utilizados na fabricação de etanol. O produto pode ser empregado na alimentação animal e amplia o aproveitamento industrial do cereal.

A transformação local gera empregos, movimenta empresas prestadoras de serviços e aumenta a circulação de renda. Também pode criar novas fontes de arrecadação tributária para os municípios, para o Estado e para a União.

Lei Kandir favorece exportação de produtos primários

A industrialização é considerada importante porque os produtos primários destinados ao mercado externo são isentos de ICMS pela Lei Kandir.

Grãos exportados sem processamento, por exemplo, deixam o Estado sem recolhimento do imposto. Quando transformados em óleos, combustíveis, alimentos ou outros derivados, passam a movimentar uma cadeia econômica mais ampla.

A mesma situação ocorre com a celulose, considerada um produto semielaborado e também beneficiada pela isenção nas exportações.

Mesmo sem recolher ICMS na saída da celulose para o exterior, as grandes fábricas instaladas no Estado estimulam outras atividades econômicas. Entre elas estão o plantio de eucalipto, o transporte de madeira, a manutenção de equipamentos, a construção civil e a prestação de serviços.

Essa rede gera empregos e arrecada tributos estaduais, municipais e federais em diferentes etapas da cadeia produtiva.

Estado prevê renúncia de R$ 11,9 bilhões

Para 2026, Mato Grosso do Sul estimou uma renúncia de aproximadamente R$ 11,9 bilhões em impostos.

O valor inclui incentivos destinados à atração de empresas e reduções tributárias aplicadas a setores considerados estratégicos ou essenciais, como carne e medicamentos.

Os benefícios são concedidos principalmente por meio de isenções ou diminuição das alíquotas do ICMS.

Perez defende que, em determinadas situações, abrir mão de parte do imposto pode trazer resultados econômicos maiores no longo prazo.

A chegada de uma indústria pode representar novos empregos, transferência de tecnologia, contratação de fornecedores, movimentação do comércio e aumento da renda nos municípios.

Crescimento econômico não aparece apenas na arrecadação

O secretário afirma que o desempenho da economia estadual não deve ser medido exclusivamente pela arrecadação tributária.

Segundo ele, Mato Grosso do Sul mantém um ritmo de crescimento sustentado, ainda que o avanço não se reflita integralmente na receita do ICMS.

“Crescimento não é só arrecadação, é Produto Interno Bruto (PIB) também, e tem crescido muito bem”, afirmou.

A arrecadação do imposto chegou a cerca de R$ 5 bilhões neste ano, mantendo nível semelhante ao registrado no mesmo período de 2025.

Para o governo, a estabilidade representa um resultado positivo diante da redução expressiva da receita proveniente do gás natural importado da Bolívia.

Queda do gás boliviano reduziu arrecadação

O gás natural boliviano já respondeu por quase 30% da arrecadação estadual de ICMS. Atualmente, essa participação não alcança um terço do percentual registrado anteriormente.

A queda está relacionada à redução da produção e da oferta de gás pela Bolívia.

O produto entra no Brasil por Corumbá, o que historicamente garantiu receita significativa aos cofres de Mato Grosso do Sul.

Segundo Perez, essa arrecadação poderá voltar a crescer caso a Bolívia amplie a extração ou a Argentina consiga enviar ao Brasil o gás produzido na formação de Vaca Muerta.

As duas possibilidades, entretanto, dependem de investimentos em produção e infraestrutura. Como o resultado não está sob controle direto do governo estadual, a prioridade permanece na expansão da indústria de transformação.

“Essa é a dinâmica que a gente tem criado, que é você incentivar as nossas aptidões”, declarou o secretário.

Obras rodoviárias serão diferencial competitivo

A ampliação da infraestrutura rodoviária é uma das principais apostas do governo para atender às novas demandas industriais.

Nos últimos anos, o Estado lançou obras especialmente na região leste, onde houve forte expansão da cadeia de celulose.

Os investimentos incluem pavimentação, restauração de rodovias, construção de acessos e melhoria da infraestrutura urbana nos municípios.

O governo obteve autorização para contratar R$ 950 milhões em empréstimos com o Banco do Brasil. Parte das obras financiadas com esses recursos já passou pelo processo de licitação.

Também foi aprovado um financiamento de US$ 200 milhões com o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Os recursos serão destinados a projetos rodoviários que ainda deverão ser contratados.

A expectativa é que as melhorias reduzam custos de transporte, facilitem o escoamento da produção e ampliem a competitividade de Mato Grosso do Sul na atração de novos empreendimentos.

Com o fim dos incentivos fiscais, a capacidade de oferecer infraestrutura adequada, serviços públicos eficientes e cadeias produtivas estruturadas deverá ter peso cada vez maior nas decisões de investidores.


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