Justiça / Política
PF aponta aval da Câmara em emendas atribuídas a Eduardo Cunha
Investigação afirma que servidora da Presidência da Câmara operacionalizava recursos em favor do ex-deputado, que nega irregularidades
12/07/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que há indícios de que a Presidência da Câmara dos Deputados tinha conhecimento e teria dado aval à movimentação de emendas parlamentares atribuídas ao ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), mesmo sem ele exercer mandato.
Cunha é investigado por supostamente ter indicado ao menos 29 emendas parlamentares fora do exercício de cargo eletivo. No âmbito da apuração, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou o bloqueio de mais de R$ 6,1 milhões em bens do ex-presidente da Câmara. A defesa nega que ele tenha feito as indicações.
Segundo a investigação, Eduardo Cunha teria usado servidores da Câmara dos Deputados para direcionar recursos conforme seus interesses políticos em Minas Gerais, Estado pelo qual é pré-candidato a deputado federal.
A PF aponta a servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, assessora da Presidência da Câmara, como responsável por operacionalizar o direcionamento das emendas. Ela foi alvo de uma operação da Polícia Federal em dezembro do ano passado.
De acordo com os investigadores, Tuca atuava no despacho de emendas parlamentares desde a gestão de Arthur Lira (PP-AL) e permaneceu na função durante a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB).
Em um dos trechos do relatório enviado ao STF, a Polícia Federal afirma que “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas” em favor de Eduardo Cunha.
Para a PF, a dinâmica revelaria um grau elevado de interferência informal na destinação de recursos públicos. O relatório cita ainda um “altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”.
A investigação também sustenta que as provas reunidas permitem concluir que Eduardo Cunha atuava como agente privado com influência política comparável ou superior à de parlamentares em exercício.
“Isso revela um quadro de gravíssimo desvio de finalidade, pois as emendas, criadas para atender demandas legítimas de representantes eleitos, acabam subordinadas a um esquema informal coordenado por quem não mais responde ao eleitorado, ao Parlamento ou às regras republicanas de transparência”, afirma trecho do relatório.
Nos bastidores da Câmara, Eduardo Cunha é tratado como aliado próximo do atual presidente da Casa, Hugo Motta, e também do ex-presidente Arthur Lira.
Foi durante a gestão de Cunha na Presidência da Câmara que Hugo Motta ganhou projeção nacional. Por indicação de Leonardo Picciani, então no MDB, o deputado paraibano assumiu a presidência da CPI da Petrobras, que desgastou o governo de Dilma Rousseff (PT) antes do processo de impeachment admitido pela Câmara em abril de 2016. Na ocasião, Motta votou a favor da abertura do processo.
Parlamentares também citam a contratação de Dani Cunha (PL-RJ), filha de Eduardo Cunha e hoje deputada federal, por Hugo Motta para serviços de marketing político. À época, Motta afirmou à imprensa que o pagamento foi feito com recursos próprios.
Em outro trecho da apuração, a PF relata que a primeira conversa encontrada entre Eduardo Cunha e Mariângela Fialek ocorreu em setembro de 2025, por aplicativo de mensagens.
Segundo o relatório, o ex-deputado menciona conversas com “Arthur” e “Hugo”. Parte do diálogo, porém, teria sido apagada por Mariângela Fialek, o que impediu a PF de identificar todo o contexto.
“Tive ontem com Arthur. Hugo me ligou à noite. Enfim, tentando ajudar. Mas Arthur tem razão”, diz a mensagem atribuída a Cunha.
Em nota, Eduardo Cunha afirmou que as emendas investigadas foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados”. A defesa negou que o ex-deputado tenha apresentado as indicações.
Os advogados também informaram que vão recorrer contra o bloqueio dos bens determinado por Flávio Dino.
“Deste modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar”, diz a manifestação.
O caso segue sob análise do STF e amplia a investigação sobre a influência de pessoas sem mandato na destinação de emendas parlamentares.
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