Política / Investigação
Emendas atribuídas a Valdemar teriam bancado shows sertanejos no interior
Recursos investigados pela PF foram usados por cidades de São Paulo e Paraná para contratar artistas em eventos municipais
11/07/2026
10:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Emendas parlamentares atribuídas pela Polícia Federal (PF) ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, teriam sido usadas para pagar shows em eventos realizados por prefeituras do interior de São Paulo e do Paraná. Os repasses fazem parte da investigação que apura a suposta influência do dirigente partidário na destinação de recursos do Orçamento da União, mesmo sem mandato parlamentar.
Segundo dados da plataforma Transferegov, recursos enviados a pelo menos quatro municípios foram utilizados na contratação de artistas. Os casos envolvem as cidades de Iepê (SP), Guaimbê (SP), Macedônia (SP) e Cafelândia (PR).
Em Iepê, município paulista com cerca de 7,6 mil habitantes, a verba foi usada para contratar a banda Traia Véia e a dupla Thaeme & Thiago para a 4ª Agrofest, realizada em novembro de 2025. Cada apresentação custou R$ 250 mil.
Em Guaimbê (SP), a emenda supostamente indicada por Valdemar também foi destinada à contratação da dupla Thaeme & Thiago. O show ocorreu durante a Festa do Peão de Boiadeiro de Guaimbê, também em novembro de 2025, com cachê de R$ 280 mil.
A mesma dupla voltou a aparecer em outro repasse investigado. Em Cafelândia (PR), cidade com aproximadamente 19 mil habitantes, os recursos federais foram usados para custear a apresentação dos artistas na comemoração dos 43 anos do município.
Já em Macedônia (SP), município com menos de 4 mil habitantes, a verba foi utilizada para pagar show da cantora Mariana Fagundes durante a programação de aniversário da cidade, em outubro de 2025.
Até então, as indicações das emendas apareciam em documentos da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados como vinculadas à Liderança do Partido Liberal. A investigação da PF, no entanto, aponta que o responsável real pelas indicações seria Valdemar Costa Neto.
A apuração da Polícia Federal cruzou informações obtidas em operação com dados do Portal da Transparência e identificou mais de R$ 100 milhões em emendas que teriam sido indicadas por Valdemar, principalmente na área da Saúde.
Outra parte dos recursos foi direcionada a ações de Turismo e Desenvolvimento Urbano. Entre as despesas identificadas pela investigação estão pavimentação, revitalização de infraestrutura, contratação de artistas e realização de evento natalino.
Diante dos indícios apresentados pela PF, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a indisponibilidade de R$ 119 milhões em bens de Valdemar Costa Neto. O magistrado também ordenou a suspensão da execução das despesas listadas pela corporação.
A decisão reproduz trechos da representação policial que apontam a atuação de três servidores da Câmara dos Deputados na inserção de emendas atribuídas a Valdemar entre indicações formais. Para a PF, os investigados tratavam os recursos como cotas privadas de uma pessoa sem mandato, hipótese que poderia configurar peculato-desvio.
Em nota, a defesa de Valdemar Costa Neto afirmou ter recebido com surpresa a decisão de Flávio Dino e negou irregularidades.
“Com o devido respeito, a decisão parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária”, declarou.
Os advogados também afirmaram que Valdemar nega a prática de qualquer crime.
“Valdemar Costa Neto nega categoricamente a prática de qualquer crime. Não há qualquer prova, ou mesmo indício, de que tenha aderido conscientemente a um suposto esquema criminoso”, completou a defesa.
A defesa sustenta ainda que é natural, no sistema democrático, que presidentes partidários dialoguem com parlamentares, defendam prioridades programáticas, articulem interesses regionais e influenciem politicamente suas bancadas.
“A defesa lamenta a exposição pública prematura de investigação ainda em fase preliminar, especialmente quando desacompanhada de elementos indiciários idôneos e em período de especial sensibilidade institucional e eleitoral”, afirmou.
O caso segue em investigação. Até o momento, não há condenação contra Valdemar Costa Neto nesse procedimento.
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