Política / Investigação
Relatório do Gaeco cita políticos de MS em conversas sobre contratos de livros
Mensagens extraídas de celulares de investigados mencionam vice-governador, deputados, vereador e ex-parlamentar, sem atribuição direta de crime
16/07/2026
07:15
CE
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Relatório produzido no âmbito da Operação Gutenberg, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), registra menções a pelo menos oito agentes políticos de Mato Grosso do Sul em conversas extraídas dos celulares de investigados por um suposto esquema de corrupção envolvendo a venda de livros paradidáticos para prefeituras.
As citações aparecem no Procedimento Investigatório Criminal (PIC) e envolvem o vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha (Republicanos), o deputado federal Dagoberto Nogueira (PP), os deputados estaduais Paulo Corrêa (PL), Mara Caseiro (PL), Jamilson Name (PP) e Lídio Lopes (Avante), o vereador Herculano Borges (Republicanos) e a ex-deputada federal Rose Modesto (União Brasil).
O documento reproduz diálogos mantidos entre pessoas investigadas e contextualiza referências a autoridades durante tratativas relacionadas à comercialização de materiais da Editora Avante. As menções, contudo, não representam, por si só, atribuição de responsabilidade criminal aos políticos citados.
Em uma conversa de 28 de julho de 2022, Ed Carlos Britto Burgatt, preso e afastado do cargo de coordenador da Coordenadoria de Regulação e Assistência do Estado (CRA), informa ao advogado Gabriel Taquino de Paula que teria agendado uma reunião com um assessor de Barbosinha.
Gabriel Taquino, também preso e apontado na investigação como vendedor da Editora Avante, participa de conversas nas quais os investigados discutem possíveis contratos e articulações políticas em municípios.
Segundo o relatório, Ed Carlos afirma que o então deputado teria “dez municípios” para atender com materiais da editora e que buscaria o apoio de outro parlamentar para ampliar os negócios.
No mesmo diálogo, os investigados fazem referências ao interesse em concretizar contratos e ao potencial financeiro das negociações.
Em mensagens de 1º de agosto de 2022, os investigados voltam a citar Barbosinha. Ed Carlos relata que teria uma reunião marcada com ele e, posteriormente, outro compromisso com um assessor do então deputado estadual Herculano Borges.
Na sequência da conversa, Gabriel Taquino calcula valores que poderiam ser recebidos caso um contrato estimado em aproximadamente R$ 1,04 milhão fosse efetivado.
O relatório registra os diálogos, mas não apresenta, nesses trechos, comprovação de participação direta das autoridades mencionadas nas condutas investigadas.
O deputado federal Dagoberto Nogueira aparece em uma mensagem de 10 de maio de 2023, durante uma conversa entre Ed Carlos e Gabriel Taquino sobre articulações em municípios do interior de Mato Grosso do Sul.
Na mensagem reproduzida no documento, Ed Carlos afirma que procuraria Dagoberto para tratar de Paranaíba.
O relatório, no entanto, não detalha o contexto da referência nem atribui qualquer conduta irregular ao parlamentar.
Outras conversas, registradas entre março e abril de 2023, mostram os investigados discutindo a busca de apoio político para viabilizar novas contratações da Editora Avante.
O documento cita nominalmente os deputados estaduais Paulo Corrêa, Jamilson Name e Mara Caseiro.
Em uma das mensagens, Gabriel Taquino pede que seja marcada uma reunião com Paulo Corrêa. Em outro trecho, Ed Carlos afirma que pretendia alinhar tratativas com Jamilson Name e buscar novamente o auxílio de Corrêa.
As conversas foram incorporadas à investigação como elementos de análise, sem que o relatório atribua automaticamente responsabilidade criminal aos parlamentares mencionados.
O deputado estadual Lídio Lopes aparece em outro trecho da apuração. Segundo o relatório, Gabriel Taquino enviou uma mensagem informando que estava na residência da prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), esposa do parlamentar.
A referência teria ocorrido durante tratativas relacionadas aos contratos de livros investigados pelo Gaeco.
O documento não detalha eventual participação do deputado ou da prefeita nos fatos narrados na conversa.
A ex-deputada federal Rose Modesto é citada em uma conversa de WhatsApp na qual Felipe Jafar afirma que ela teria fornecido o contato de uma interlocutora identificada como Rita.
O objetivo seria discutir um possível orçamento para a compra de materiais da Editora Avante.
Assim como nos demais casos, o trecho registra apenas a referência feita pelo interlocutor e não apresenta imputação criminal à ex-parlamentar.
A Operação Gutenberg investiga uma suposta organização criminosa envolvida no direcionamento de contratos públicos para o fornecimento de livros paradidáticos a administrações municipais.
As mensagens extraídas dos aparelhos celulares são tratadas pelos investigadores como elementos de contexto para compreender a atuação dos envolvidos, os contatos políticos e as negociações relacionadas aos contratos.
O relatório, entretanto, limita-se a reproduzir e analisar os diálogos, sem concluir que os agentes políticos citados tenham participado de crimes.
Ao examinar os autos, o procurador-geral de Justiça de Mato Grosso do Sul, Romão Avila Milhan Júnior, não atribuiu crimes aos políticos mencionados no PIC.
A manifestação teve caráter jurídico e foi destinada à definição do órgão competente para conduzir a investigação, diante da presença de autoridades com foro por prerrogativa de função.
Em decisão de 2 de outubro de 2025, o procurador-geral observou que o relatório passou a mencionar autoridades como deputados estaduais e prefeitos.
Com fundamento na Constituição de Mato Grosso do Sul e em entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o envio dos autos ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
Depois da manifestação do Tribunal, o procedimento foi devolvido ao Gaeco, que recebeu autorização para dar continuidade às apurações.
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