Artigo / Opinião
A eleição do “nem-nem”: quando o vencedor também é rejeitado
12/07/2026
14:00
GAUDÊNCIA TORQUATO*
GAUDÊNCIA TORQUATO*
As pesquisas eleitorais mais recentes começam a revelar um cenário incomum na política brasileira. Segundo levantamento do instituto Meio/Ideia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva registra rejeição de 46,4%, enquanto o senador Flávio Bolsonaro aparece com 43,4%. O mesmo estudo mostra que 51% dos entrevistados consideram que Lula não merece um novo mandato, 48,5% desaprovam sua gestão e 41% classificam o governo como ruim ou péssimo.
Esses números desenham um quadro que pode ser resumido por uma expressão simples: a eleição do “nem-nem”. Nem Lula, nem Flávio. Um contingente expressivo do eleitorado demonstra desconforto com os dois protagonistas da disputa. Trata-se de um fenômeno que extrapola a simples rejeição individual e revela um estado de fadiga política.
À primeira vista, o cenário parece paradoxal. Como dois candidatos que acumulam elevados índices de rejeição podem liderar a corrida presidencial? A resposta está na própria natureza dos sistemas políticos polarizados. Em ambientes marcados por forte divisão ideológica, a rejeição deixa de impedir a competitividade eleitoral. Os candidatos passam a ser escolhidos não apenas pelo entusiasmo que despertam, mas também pela capacidade de bloquear o adversário.
Forma-se, assim, o chamado voto negativo. O eleitor não escolhe necessariamente quem mais admira; escolhe quem considera o mal menor ou quem julga mais capaz de impedir a vitória do oponente. A eleição deixa de ser um concurso de popularidade e transforma-se numa disputa de rejeições.
Esse comportamento não é exclusivo do Brasil. Diversas democracias contemporâneas convivem com o crescimento da polarização afetiva, na qual os eleitores desenvolvem sentimentos cada vez mais intensos contra o campo político oposto. Nessas circunstâncias, a identidade partidária e a rejeição ao adversário tornam-se forças tão ou mais importantes do que a avaliação objetiva dos programas de governo.
O resultado é um curioso paradoxo democrático. Quanto maior a polarização, menor tende a ser o espaço para alternativas intermediárias. Mesmo existindo um eleitorado insatisfeito com os dois polos, esse sentimento nem sempre se converte em apoio consistente a uma terceira candidatura. A lógica do voto útil, alimentada pelo receio de favorecer o adversário, acaba empurrando parte desse eleitorado novamente para um dos extremos.
As pesquisas recentes ilustram esse dilema. Embora os índices de rejeição sejam elevados, Lula e Flávio Bolsonaro continuam ocupando as primeiras posições nas simulações eleitorais. Isso sugere que a rejeição, isoladamente, não basta para retirar um candidato da disputa quando sua base eleitoral permanece sólida e mobilizada.
Surge, então, uma eleição peculiar. Não será necessariamente a vitória do candidato mais querido, mas possivelmente a do menos rejeitado em determinados segmentos do eleitorado ou daquele que conseguir ampliar sua aceitação além do núcleo fiel de apoiadores. Em disputas dessa natureza, pequenas oscilações entre eleitores independentes podem adquirir importância decisiva.
Outro aspecto merece atenção. O crescimento do sentimento do “nem-nem” indica que parte da sociedade deseja renovação política, mas ainda não encontrou uma liderança capaz de transformar essa expectativa em força eleitoral competitiva. Há demanda por alternativas, mas a oferta política continua concentrada nos mesmos polos que organizam o debate nacional há vários anos.
Essa combinação produz uma democracia paradoxal: a maioria manifesta insatisfação com os protagonistas, mas o sistema político continua conduzindo o eleitor para uma escolha entre eles. É como se o processo eleitoral estreitasse as possibilidades justamente quando cresce o desejo por novos caminhos.
A eleição de 2026 poderá, portanto, entrar para a história como a eleição da rejeição recíproca. Não a consagração de uma liderança amplamente aceita, mas a escolha possível dentro de um ambiente profundamente polarizado. O vencedor talvez não represente um grande consenso nacional; poderá simplesmente ser aquele que conseguir despertar menos resistência no momento decisivo.
Esse talvez seja o maior desafio da democracia brasileira: reconstruir pontes de confiança entre representantes e representados, reduzindo a distância entre o desejo de renovação da sociedade e a capacidade do sistema político de oferecer alternativas que transcendam a lógica permanente do confronto entre dois campos antagônicos.
*Professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político
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