Mundo / Segurança
Estratégia de Trump para América Latina amplia debate sobre militarização e violência regional
Análise do Projeto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados aponta que pressão dos EUA contra cartéis pode fragmentar grupos criminosos e aumentar riscos a civis
04/06/2026
12:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A política externa e de segurança adotada pelo governo Donald Trump para a América Latina voltou a ser alvo de críticas após uma análise do Armed Conflict Location & Event Data Project, ACLED, organização internacional que monitora conflitos armados e violência política. O estudo aponta que a pressão dos Estados Unidos contra cartéis e facções no continente tem estimulado respostas militarizadas, ampliado a fragmentação de grupos criminosos e elevado o risco de violência contra civis.
A estratégia vem sendo chamada por críticos de “Doutrina Donroe”, em referência irônica à Doutrina Monroe, formulada em 1823 e historicamente usada pelos Estados Unidos para justificar influência sobre as Américas. No contexto atual, o termo passou a ser associado à postura mais agressiva de Trump na região, com aumento de operações militares, ações de inteligência e pressão diplomática contra países latino-americanos.
De acordo com os analistas Sandra Pellegrini e Tiziano Breda, especialistas em América Latina no ACLED, a ofensiva americana contra o crime organizado tem acelerado a disseminação de políticas de segurança com forte presença militar. Para eles, esse modelo pode até produzir resultados de curto prazo, mas tende a gerar efeitos contraproducentes ao longo do tempo.
Segundo a análise, quando cartéis e facções sofrem pressão direta, especialmente em países onde suas fontes de renda são diversificadas, há maior chance de divisão interna, disputa por territórios e surgimento de novos grupos. Esse processo pode aumentar a competição entre organizações criminosas e tornar o cenário de segurança ainda mais instável.
O Equador é citado como exemplo desse efeito. A morte ou prisão de lideranças criminosas teria contribuído para a multiplicação de grupos dissidentes. Conforme o levantamento, o número de gangues identificadas no país passou de 24, em 2023, para 37 até o fim do ano passado.
A extradição de José Adolfo Macías, líder da facção Los Choneros, para os Estados Unidos, também é apontada como fator de reorganização do crime local. Após a retirada dele de cena, o grupo rival Los Lobos avançou sobre áreas antes controladas pelos adversários, o que, segundo os analistas, agravou a disputa violenta.
Outro ponto de preocupação é o uso crescente de tecnologias de ataque por organizações criminosas. O ACLED afirma que cartéis no México e na Colômbia têm utilizado drones armados contra forças de segurança, em uma estratégia semelhante às táticas de guerra à distância usadas por exércitos em conflitos recentes.
No México, os ataques com drones atribuídos a cartéis aumentaram 567% entre 2023 e 2025. Na Colômbia, o crescimento foi ainda mais expressivo: os registros passaram de 1 ataque em 2023 para pelo menos 107 em 2025, alta de 10.600%.
A análise também menciona a campanha de ataques realizados por militares dos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico. Desde setembro de 2025, foram registrados 62 ataques, com 205 civis mortos, segundo os dados citados. O episódio mais recente ocorreu em 30 de maio, no Pacífico, e deixou 3 mortos.
Para os analistas, o uso de ataques remotos por forças estatais e grupos de segurança alinhados aos Estados Unidos aumenta os riscos para a população civil. O relatório cita bombardeios aéreos e, no caso do Haiti, o emprego de drones por uma força-tarefa especial como exemplos de ações que podem elevar o número de mortes em confrontos envolvendo gangues e forças de segurança.
O levantamento também aponta que operações conduzidas por forças de segurança na região mataram quase 6.900 pessoas no ano passado, o maior número desde 2018. Para o ACLED, esse cenário está relacionado a uma resposta de “linha dura” contra a criminalidade e a um ambiente de maior impunidade para ações estatais violentas.
Além das operações contra cartéis, a política de Trump tem sido marcada por pressão direta sobre diferentes países do continente. O governo americano já intimidou o Panamá e fez ameaças ao Canadá, à Colômbia, à Groenlândia e a Cuba, além de ampliar sua presença militar e de inteligência em áreas consideradas estratégicas.
No caso cubano, a tensão aumentou após procuradores federais da Flórida apresentarem denúncia contra o ex-líder Raúl Castro e outras cinco pessoas pela derrubada de dois aviões por forças armadas cubanas há cerca de 30 anos. O governo americano também passou a classificar o país como ameaça militar, argumento contestado por parlamentares democratas.
O deputado Jim Himes, do Partido Democrata de Connecticut, principal representante da legenda na Comissão de Inteligência da Câmara dos Estados Unidos, afirmou que o regime cubano é autoritário, mas questionou a tentativa de tratá-lo como grande ameaça militar à segurança americana. Para ele, esse tipo de discurso pode servir como pretexto para uma ação militar.
A avaliação do ACLED é que a estratégia americana tende a reforçar a militarização das políticas de segurança na região, mas sem resolver as causas estruturais do crime organizado. Ao contrário, a repressão concentrada em capturas, mortes e ataques diretos pode espalhar facções menores, dificultar negociações locais e aumentar a instabilidade.
Na prática, o debate sobre a chamada “Doutrina Donroe” expõe uma disputa maior sobre segurança nas Américas. De um lado, o governo Trump aposta em pressão militar, sanções e operações diretas contra cartéis. De outro, especialistas alertam que esse caminho pode ampliar a violência, enfraquecer controles democráticos e deixar civis mais expostos aos efeitos da guerra contra o crime organizado.
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