Política / Despedida
Velório de Alcides Bernal reúne amigos, aliados e nomes de diferentes fases da trajetória política
Cerimônia reservada em Campo Grande foi marcada por lembranças sobre a ascensão do ex-prefeito, a cassação de 2014 e oportunidades abertas a antigos colaboradores
13/07/2026
12:30
DA REDAÇÃO
Despedida de Alcides Bernal ocorre na Capela Jardim das Palmeiras, em Campo Grande ©Osmar Veiga
Amigos, ex-integrantes da administração municipal e representantes da política de Campo Grande se reuniram nesta segunda-feira (13) para a despedida do ex-prefeito Alcides Bernal, morto aos 60 anos após complicações cardíacas. O velório foi realizado na Capela Jardim das Palmeiras, em uma cerimônia de perfil reservado, sem atendimento à imprensa por decisão da família.
As manifestações de quem passou pelo local revelaram diferentes leituras sobre a trajetória de Bernal. As lembranças envolveram a atuação no rádio, a entrada na política, a vitória na eleição municipal de 2012, a cassação ocorrida em 2014, o retorno ao cargo e as oportunidades profissionais oferecidas a pessoas que trabalharam ao lado dele.
O sepultamento foi marcado para as 16 horas, no Cemitério Jardim das Palmeiras.
Entre os presentes estava o aposentado Valdemir Gamarra Gaúna, de 69 anos, amigo de Bernal há mais de uma década. A aproximação começou ainda no período em que o ex-prefeito trabalhava no rádio e continuou durante sua atuação como advogado.
Valdemir contou que frequentava o escritório de Bernal e mantinha conversas que não se limitavam à política ou aos assuntos profissionais.
“Eu sempre ia ao escritório dele. A gente conversava particularmente, independentemente de política, de ação ou alguma coisa”, recordou.
Ao falar sobre os últimos acontecimentos da vida do ex-prefeito, o aposentado preferiu preservar a memória da amizade e não entrar em detalhes sobre o processo criminal.
“Recentemente aconteceu o que aconteceu com ele, mas a gente tem as nossas considerações e eu vim aqui para me despedir. É a despedida de um amigo, de um companheiro”, afirmou.
O vereador Riverton de Souza também acompanhou a cerimônia e defendeu que a trajetória de Bernal seja analisada além dos acontecimentos registrados nos últimos meses.
Segundo o parlamentar, o ex-prefeito construiu uma carreira relevante antes de chegar ao comando da Capital.
“A gente não pode esquecer que ele foi vereador por dois mandatos, foi prefeito de Campo Grande, então tem uma história política”, declarou.
Riverton ressaltou que Bernal alcançou cargos importantes sem pertencer a famílias tradicionais ou contar com uma estrutura política consolidada.
“Ele não veio de sobrenome. É um cara que realmente se tornou prefeito de Campo Grande pelo trabalho, principalmente dentro da comunicação”, disse.
Para o vereador, a origem no rádio foi decisiva para a conexão de Bernal com parte da população.
“Foi um cara que chegou onde chegou sozinho, sem padrinhos”, afirmou.
Riverton também lembrou que ambos construíram parte da carreira profissional no rádio.
“Era um cara do rádio, eu sou do rádio também. Então é um cara em que, com certeza, muita gente se inspirou”, completou.
A ex-secretária municipal Jacqueline Hildebrand Romero destacou as oportunidades recebidas no início da carreira. Ela relatou que começou a atuar na advocacia ao lado de Bernal e, posteriormente, integrou equipes do então vereador, deputado estadual e prefeito.
“Eu tive a minha primeira experiência na advocacia com o Bernal, com a oportunidade que ele me deu para, além de atuar na advocacia, estar na assessoria dele enquanto vereador e deputado”, afirmou.
Jacqueline também recordou projetos ligados às políticas públicas para as mulheres. Entre as iniciativas citadas está a criação da Secretaria Municipal da Mulher, compromisso apresentado durante a campanha eleitoral.
“Campo Grande até então não tinha uma secretaria, e essa foi uma pauta da campanha do Bernal: que, se ele fosse eleito, criaria a Secretaria da Mulher”, declarou.
Ela mencionou ainda os primeiros passos para a implantação da Casa da Mulher Brasileira, estrutura posteriormente inaugurada para atendimento integrado a mulheres vítimas de violência.
“Foi o Bernal que lançou a criação, lançou a pedra fundamental quando a gente estava no governo dele”, disse.
Ao avaliar a influência do ex-prefeito na trajetória de antigos colaboradores, Jacqueline afirmou que várias pessoas conseguiram avançar profissionalmente a partir das oportunidades recebidas.
“Hoje, graças a Deus e graças à oportunidade que ele nos deu, a gente está encaminhado profissionalmente”, afirmou.
O político Beto Figueiró apresentou uma avaliação mais crítica sobre os episódios que marcaram a passagem de Bernal pela prefeitura. Embora tenha dito que não mantinha uma amizade íntima com o ex-prefeito, afirmou que existia uma relação de respeito construída no ambiente político.
Para Figueiró, a cassação aprovada pela Câmara Municipal em 2014 se tornou o acontecimento central da carreira de Bernal.
“Eu entendo que o Alcides Bernal foi uma grande vítima de um sistema. Um sistema que o retirou, de forma espúria, da Prefeitura; um sistema que desprezou a vontade do eleitor e o arrancou dramaticamente do cargo”, declarou.
Na avaliação dele, a vitória eleitoral de Bernal em 2012 representou uma ruptura com grupos que dominavam a política local naquele período.
“Ele contrariou um sistema que parecia imbatível. O Alcides Bernal leva consigo uma reflexão muito forte sobre a política e sobre o que acontece quando alguém tenta romper estruturas já estabelecidas”, disse.
Figueiró afirmou ainda que Bernal relatava os desafios enfrentados depois de chegar à prefeitura e carregava as consequências da cassação mesmo nos anos seguintes.
Natural de Corumbá, Alcides Bernal construiu projeção pública como radialista e apresentador antes de ingressar na política. Advogado, foi eleito vereador de Campo Grande em 2004 e conseguiu a reeleição em 2008.
Em 2010, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Dois anos depois, deixou o mandato estadual para disputar a Prefeitura de Campo Grande.
Na eleição de 2012, Bernal derrotou Edson Giroto e chegou ao Executivo municipal em uma das disputas mais marcantes da história recente da Capital.
O mandato foi interrompido em 12 de março de 2014, quando a Câmara Municipal aprovou a cassação. Bernal se tornou o primeiro prefeito de Campo Grande afastado do cargo por decisão dos vereadores.
Ele retornou à prefeitura em agosto de 2015, após decisão judicial tomada no contexto dos desdobramentos da Operação Coffee Break. Permaneceu no cargo até o fim de 2016, mas não conseguiu voltar a ocupar função eletiva nos anos seguintes.
Em 24 de março de 2026, Bernal foi preso preventivamente após a morte do auditor fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, em um imóvel no Jardim dos Estados.
O ex-prefeito se apresentou à polícia e permaneceu sob custódia enquanto aguardava julgamento pelo Tribunal do Júri. A defesa sustentava que ele havia agido em legítima defesa.
Bernal foi hospitalizado no início de julho após sofrer um infarto. Passou por procedimentos cardíacos, recebeu alta e retornou ao presídio, mas voltou a apresentar piora no quadro de saúde durante o fim de semana.
Ele morreu na madrugada desta segunda-feira, na Santa Casa de Campo Grande, um dia antes de completar 61 anos.
A despedida reuniu pessoas ligadas a diferentes fases de uma trajetória marcada pela comunicação popular, pela ascensão eleitoral, por conflitos institucionais e por sucessivas reviravoltas na vida pública.
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