Campo Grande (MS), Quinta-feira, 04 de Junho de 2026

Comércio / Infraestrutura

Embaixador da China vê Rota Bioceânica como impulso para negócios com Mato Grosso do Sul

Corredor deve reduzir custos logísticos, aproximar MS dos mercados asiáticos e ampliar investimentos chineses no Estado

13/05/2026

15:30

DA REDAÇÃO

A Rota Bioceânica deve abrir uma nova fase nas relações comerciais entre Mato Grosso do Sul e a China, com impacto direto nas exportações, na logística e na atração de investimentos. A avaliação é do embaixador da República Popular da China no Brasil, Zhu Qingqiao, que participou, na noite de terça-feira, 12 de maio, em Brasília, do Summit Bioceânica, encontro dedicado ao avanço do corredor internacional.

O evento foi organizado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS) e patrocinado pela Itaipu Binacional. A programação reuniu 48 embaixadores e mais de uma dezena de prefeitos sul-mato-grossenses, com foco nas oportunidades econômicas geradas pela integração logística entre Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e os mercados asiáticos.

A rota, também chamada de Corredor Bioceânico de Capricórnio, vai conectar o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, criando uma alternativa ao escoamento tradicional pelo Atlântico e pelo Canal do Panamá. Em Mato Grosso do Sul, a principal porta de entrada será por Porto Murtinho, com ligação à cidade paraguaia de Carmelo Peralta.

Segundo Zhu Qingqiao, Mato Grosso do Sul já ocupa posição relevante nas relações econômicas entre Brasil e China, especialmente por causa da exportação de commodities como soja, celulose e carne bovina.

“Mato Grosso do Sul é um estado muito importante para as relações econômicas e comerciais entre o Brasil e a China, cooperação que vem crescendo muito rapidamente. E a Rota Bioceânica vai impulsionar essa relação e fortalecer a parceria entre o Brasil, Mato Grosso do Sul, a China e toda a Ásia”, afirmou o embaixador.

Embora não tenha apresentado uma projeção numérica sobre novos negócios, o representante chinês disse estar otimista com o crescimento da cooperação comercial. Para ele, a melhoria da infraestrutura logística tende a facilitar o transporte de cargas, reduzir prazos e tornar os produtos sul-mato-grossenses mais competitivos no mercado asiático.

“As relações entre China e Brasil vivem atualmente o melhor momento de sua história e queremos que esse desenvolvimento seja contínuo e possa trazer mais benefícios aos dois povos. Estamos muito otimistas com essa cooperação com o Brasil e, em especial, com Mato Grosso do Sul”, completou Zhu Qingqiao.

China lidera compras de produtos de MS

Em 2025, Mato Grosso do Sul alcançou recorde nas exportações, com cerca de US$ 10,7 bilhões em vendas ao exterior. A China liderou as compras, principalmente de soja, celulose e carne bovina. O bom desempenho também foi mantido nos primeiros quatro meses de 2026, segundo dados oficiais.

Os investimentos chineses no Estado também têm avançado. Um dos movimentos mais recentes foi o protocolo de intenções assinado em 6 de maio de 2026 entre o governo estadual e a empresa chinesa Broad Wire, que prevê investimentos em Três Lagoas para produção de arames metálicos voltados à cadeia da celulose.

Para o embaixador chinês, empresas do país asiático estão ampliando a presença no Brasil em busca de novas oportunidades. Ele destacou o mercado brasileiro, a estabilidade política e a orientação estratégica entre os chefes de Estado como fatores importantes para a expansão da cooperação.

“Para nós, o Brasil é muito importante, porque é um grande mercado, com estabilidade política e orientação estratégica entre os dois chefes de Estado. Essa cooperação está cada vez mais ampliada e queremos manter essa tendência de crescimento e desenvolvimento para resistir às turbulências do cenário internacional”, afirmou.

Corredor pode reduzir tempo e custo do transporte

Para o senador Nelsinho Trad, a Rota Bioceânica representa uma janela estratégica para o comércio exterior de Mato Grosso do Sul. Estudos apontam que o corredor poderá reduzir em 17 dias o tempo logístico para países asiáticos e encurtar a rota marítima em cerca de 8 mil quilômetros, podendo chegar a até 10 mil quilômetros em algumas operações.

A expectativa é que essa redução gere economia de até 40% no custo de transporte de produtos, tanto na ida quanto na volta. O impacto não se limita ao mercado asiático, já que a rota também pode beneficiar países que utilizam o Oceano Pacífico como eixo comercial.

Ponte entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta está na reta final

Com cerca de 2,4 mil quilômetros de extensão, a Rota Bioceânica passará por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. No trecho de Mato Grosso do Sul, a ligação será feita pela ponte internacional entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, sobre o Rio Paraguai.

As obras da ponte estão com mais de 90% de execução. Segundo as informações apresentadas no evento, restam cerca de 20 metros para a união das duas extremidades da estrutura, etapa conhecida como “beijo da ponte”. A expectativa mais otimista é que esse marco ocorra entre 1º e 12 de junho.

O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, afirmou que a ponte é financiada pela Itaipu na margem paraguaia, com investimento de US$ 100 milhões, cerca de R$ 500 milhões. O acordo de integração também envolveu a construção da segunda ponte entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, com investimento superior a R$ 450 milhões, financiado pela Itaipu na parte brasileira.

Do lado brasileiro, as obras de acesso, alfândegas e demais estruturas estão sob responsabilidade do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), vinculado ao Ministério dos Transportes. Os recursos federais do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) somam cerca de R$ 472 milhões.

Alfândega ainda é desafio para operação plena

Apesar do avanço das obras, gargalos regulatórios e alfandegários ainda preocupam. Estudo liderado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) aponta a necessidade de harmonização das regras entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile para garantir fluidez no transporte internacional de cargas.

Do lado brasileiro, a ACI (Área de Controle Integrada) de Porto Murtinho ainda não saiu do papel. A estrutura deverá reunir órgãos como Receita Federal, Polícia Federal, Vigiagro, Anvisa, DNIT e outras instituições ligadas ao controle de fronteira.

Outro ponto de atenção é a capacidade do pátio de estacionamento integrado ao Paraguai. A previsão inicial é de 240 vagas para caminhões, 36 para liberação rápida, 14 para ônibus de passageiros e 38 para automóveis.

O estudo compara a estrutura planejada com a fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, que possui cerca de mil vagas em cada lado e ainda enfrenta restrições em períodos de grande movimento.

Operação será gradual após conclusão da ponte

Enio Verri reconheceu a complexidade da operação logística, mas afirmou que haverá possibilidade de ampliação futura da estrutura conforme a demanda. Segundo ele, a implantação do corredor deve ocorrer por etapas, com testes, ajustes e liberação gradual do tráfego.

“Costumamos dizer que as abóboras se ajustam com o andar das carroças. Ou seja, é preciso começar com veículos pequenos, depois liberar caminhões apenas à noite e, posteriormente, caminhões durante todo o dia, ajustando gradualmente o corredor logístico”, afirmou.

O diretor da Itaipu também explicou que a ponte não estará totalmente operacional logo após o chamado “beijo” da estrutura. Depois da conclusão física e dos acessos, equipes técnicas dos dois países precisarão realizar testes e definir regras de operação.

Para Nelsinho Trad, municípios localizados ao longo da rota precisam se preparar para os impactos econômicos e estruturais do corredor. Em Porto Murtinho, por exemplo, a prefeitura vem investindo mais de R$ 100 milhões em melhorias urbanas e serviços básicos, incluindo hospital, aeroporto, escolas e pavimentação, segundo o prefeito Nelson Cintra.

A expectativa é que, com a conclusão das obras e a organização da estrutura alfandegária, Mato Grosso do Sul fortaleça sua posição como eixo logístico internacional, ampliando a competitividade do Estado no comércio com a China e outros mercados da Ásia.


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