Política / Família
Crise entre Michelle e Flávio reacende histórico de disputas no clã Bolsonaro
Colunista relembra episódio de 2000, quando Carlos Bolsonaro disputou eleição contra a própria mãe, Rogéria Bolsonaro
27/06/2026
08:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O embate público entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, do PL-RJ, abriu uma nova crise familiar no grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A troca de acusações, ampliada após vídeos publicados pela ex-primeira-dama nas redes sociais, trouxe de volta episódios antigos de disputa interna no clã.
No podcast O Assunto, o colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo e da rádio CBN, lembrou que esta não é a primeira vez em que Jair Bolsonaro prioriza politicamente um filho em detrimento de uma companheira.
O caso citado ocorreu em 2000, quando Bolsonaro ainda cumpria seus primeiros mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro e atravessava o processo de separação de Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro.
Naquele ano, Rogéria tentava a reeleição para um terceiro mandato como vereadora na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Em vez de apoiar a então esposa, Jair Bolsonaro lançou o filho Carlos Bolsonaro, que tinha 17 anos, para disputar uma vaga no mesmo Legislativo municipal.
O resultado marcou a trajetória política da família. Carlos Bolsonaro foi eleito vereador, enquanto Rogéria Bolsonaro não conseguiu renovar o mandato. O episódio passou a ser lembrado como um dos primeiros sinais da centralidade dos filhos no projeto político bolsonarista.
“De certa forma, é a mesma coisa que está acontecendo agora, com a diferença de que Michelle nem mãe dos filhos de Jair Bolsonaro é. Do ponto de vista dos irmãos, parece que, desde o começo, já estava claro que ela seria preterida nessa disputa”, afirmou Bernardo Mello Franco.
Para analistas, a construção política de Jair Bolsonaro sempre teve forte caráter familiar. Flávio, Carlos e Eduardo foram projetados ao longo dos anos como herdeiros políticos do ex-presidente, cada um ocupando funções estratégicas dentro do bolsonarismo.
Um dos episódios simbólicos dessa dinâmica ocorreu na posse presidencial de 2019, quando Carlos Bolsonaro acompanhou Jair e Michelle Bolsonaro no desfile em carro aberto. A cena foi interpretada como demonstração da influência dos filhos no núcleo mais próximo do então presidente.
A ascensão de Michelle Bolsonaro como liderança política, especialmente após o fim do mandato presidencial, alterou esse arranjo. Hoje, ela comanda o PL Mulher, participa de agendas pelo país e passou a ocupar espaço próprio dentro da legenda.
Segundo Bernardo Mello Franco, a ex-primeira-dama atua não apenas para construir eventual candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, mas também para formar uma base política própria, especialmente entre mulheres e eleitoras evangélicas.
“A Michelle hoje é uma dirigente partidária. Ela comanda o PL Mulher e tem uma grande verba partidária para viajar pelo país e promover atos de filiação. De fato, ela trabalha não apenas para se eleger senadora pelo Distrito Federal, mas também para construir uma bancada própria, formada por mulheres e por mulheres evangélicas”, afirmou o colunista.
Para ele, a disputa atual ultrapassa o campo familiar e envolve projetos políticos concorrentes dentro do mesmo grupo. De um lado, os filhos de Jair Bolsonaro buscam preservar a linha sucessória construída ao longo dos anos. De outro, Michelle tenta consolidar autonomia e influência eleitoral.
“Portanto, por trás de Michelle há um projeto político próprio, que disputa espaço com o projeto político dos filhos de seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro”, disse Bernardo Mello Franco.
A crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro expõe, mais uma vez, como decisões familiares e estratégias eleitorais se confundem no bolsonarismo. O desdobramento pode influenciar a organização interna do PL, a definição de candidaturas e a disputa por protagonismo dentro da direita nas eleições de 2026.
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