Artigo / Opinião
Ônibus: mudança de mãos não muda destino. A menos que vocês mudem tudo
23/07/2026
08:00
Fayez José Rizk
Fayez José Rizk*
Campo Grande insiste em tratar o transporte coletivo como um problema menor, como se fosse apenas uma questão de tarifa, de frota, de “gestão”. Não é. O sistema está podre na origem, ultrapassado, mal planejado e incapaz de atender a cidade que temos hoje.
E, por mais que se inventem CPIs, intervenções ou trocas de comando, seguimos empurrando com a barriga um modelo que já deveria ter sido aposentado há décadas.
A CPI dos ônibus foi um espetáculo de improviso. Como já escrevi, terminou como cachorro que finalmente alcança o carro: fica parado, sem saber o que fazer. A intervenção no consórcio foi outro capítulo da mesma novela.
Não por falta de boa vontade, mas porque ninguém resolve um problema estrutural com remendos administrativos.
Agora, anuncia-se que o consórcio terá novos donos. E aqui vai a verdade nua e crua: se não houver replanejamento total do sistema, Campo Grande continuará andando em círculos. Trocar o dono sem trocar o modelo é como trocar o motorista de um carro sem motor.
O sistema atual é um fóssil urbano. Foi pensado em 1978, implantado em 1992 e mantido, com maquiagens, até hoje. Quase meio século depois, insistimos em operar uma cidade que não existe mais.
Campo Grande cresceu, adensou, verticalizou, expandiu sua área urbana até se tornar uma das maiores do país, maior que Porto Alegre, maior que Fortaleza, e mesmo assim preserva vazios urbanos gigantescos que inviabilizam linhas rentáveis e empurram a tarifa para cima.
O Plano Diretor, ao privilegiar quase exclusivamente o meio ambiente, ignorou a Mobilidade Urbana, justamente o eixo que deveria organizar o crescimento da cidade.
Resultado: liberou-se verticalização em praticamente toda a área urbana, sem corredores, sem integração, sem racionalidade. Criou-se uma cidade difícil de servir e cara de operar. E o passageiro fez o que qualquer pessoa faria: abandonou o sistema.
Caímos de 6,5 milhões de transportados por mês para 3,2 milhões. De 5,7 milhões de pagantes para 2 milhões. Uma sangria. Quem saiu migrou para aplicativos ou para motocicletas, estas últimas, aliás, entupindo o sistema público de saúde com acidentes diários.
E o que Campo Grande faz diante disso? Discute tarifa. Discute frota. Discute quem manda no consórcio. Discute tudo, menos o essencial: o sistema está errado.
Os novos proprietários terão diante de si uma tarefa monumental: reconstruir o transporte coletivo de Campo Grande do zero. Não é “melhorar”. Não é “modernizar”. É refazer. É ter coragem de enfrentar uma cidade que há muito perdeu qualquer visão estratégica sobre mobilidade.
Se não houver replanejamento profundo, continuaremos vivendo essa comédia urbana em que todos reclamam, ninguém decide e o sistema segue se arrastando, caro, ineficiente e cada vez mais vazio.
Oremos. Mas, desta vez, oremos com muita, mas muita fé, quase desespero.
Fayez José Rizk é arquiteto e urbanista.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Violência contra mulheres cresce em MS e pressiona Estado por políticas permanentes
Leia Mais
Ausência de Lula pode alterar estratégia de Flávio Bolsonaro nos debates
Leia Mais
Mega-Sena sorteia R$ 62 milhões nesta quinta-feira pelo concurso 3.035
Leia Mais
Centrão evita Lula e Flávio no primeiro turno e prioriza disputas pelo Congresso
Municípios