Política / Saúde
Operação Gutenberg leva denúncias sobre regulação da saúde ao plenário da ALEMS
Pedro Kemp classificou como gravíssimas as suspeitas de negociação de vagas do SUS; Gaeco apura contratos fraudulentos e desvio de R$ 27 milhões
08/07/2026
10:45
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Os desdobramentos da Operação Gutenberg chegaram ao plenário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul nesta quarta-feira, 8 de julho. Deputados cobraram investigação rigorosa sobre o suposto uso da liberação de exames e internações hospitalares como instrumento de negociação com prefeituras.
Ao comentar o caso, o deputado estadual Pedro Kemp, do PT, afirmou que a conduta atribuída aos investigados atinge diretamente pacientes que aguardam atendimento no Sistema Único de Saúde. Para o parlamentar, a eventual comercialização de vagas em hospitais representa uma violação especialmente grave por envolver pessoas em situação de doença e sofrimento.
A operação foi deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, Gaeco, que investiga uma organização suspeita de movimentar R$ 27 milhões por meio de contratos fraudulentos e superfaturados. Segundo a apuração, livros paradidáticos fornecidos por gráficas e editoras teriam sido contratados por administrações municipais em troca de facilidades na regulação de pacientes.
O esquema investigado teria conectado agentes públicos, empresários e representantes municipais. A suspeita é de que a influência sobre vagas de exames, consultas e internações fosse utilizada para favorecer determinados municípios, enquanto contratos públicos abasteciam financeiramente o grupo.
A Gutenberg resultou no cumprimento de 16 mandados de prisão preventiva e 43 ordens de busca e apreensão. As diligências ocorreram em cidades como Campo Grande, Dourados e Porto Murtinho, além de municípios localizados em outros estados.
Entre os presos está Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador da Central Estadual de Regulação e auditor de saúde concursado do Governo de Mato Grosso do Sul. De acordo com o Portal da Transparência, o servidor tem salário-base de R$ 32.428,98, que pode alcançar R$ 44.149,24 com adicionais.
Documentos de outro processo mostram que Burgatt ingressou com ação contra o Estado, em março de 2026, pedindo promoção funcional por merecimento e o pagamento de aproximadamente R$ 31,2 mil em valores retroativos. As acusações formuladas na Operação Gutenberg ainda serão analisadas pela Justiça, com garantia de defesa aos investigados.
Também foram presos Jéssyca Duarte Burgatt, filha do coordenador e sócia de uma operadora de saúde em Campo Grande, e o ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior.
Durante o pronunciamento, Kemp mencionou pessoas relacionadas à Gráfica Alvorada e à família Jafar, que já apareceram em outras investigações policiais. Entre os detidos estão a empresária Rossana Paroschi Jafar e os filhos Olívia Paroschi Jafar, médica, e Felipe Paroschi Jafar, servidor comissionado da Agesul.
O deputado afirmou que o uso da saúde pública para obtenção de vantagens financeiras precisa receber resposta firme das instituições. Em sua avaliação, fraudes nessa área atingem diretamente o direito básico de acesso ao atendimento médico.
O deputado Junior Mochi, do MDB, também se manifestou durante a sessão. Ele defendeu uma apuração completa, com individualização das responsabilidades e punição dos envolvidos caso as acusações sejam comprovadas.
Mochi ressaltou que escândalos envolvendo recursos públicos ampliam a desconfiança da população em relação às instituições. Kemp relacionou esse ambiente ao aumento da abstenção eleitoral e ao afastamento de parte da sociedade do processo político.
O Governo de Mato Grosso do Sul informou que os servidores citados na investigação serão afastados ou exonerados das funções comissionadas. O Executivo também determinou a abertura de auditoria interna para verificar a extensão das possíveis fraudes em procedimentos administrativos e médicos.
Os presos passam por audiências de custódia entre esta quarta-feira e a quinta-feira, 9 de julho. Depois das decisões judiciais, poderão ser encaminhados ao sistema prisional ou submetidos a outras medidas cautelares.
A investigação expõe uma área sensível da administração pública. Caso as suspeitas sejam confirmadas, o esquema pode ter interferido diretamente na ordem de atendimento de pacientes, no uso dos recursos do SUS e na distribuição de vagas hospitalares em Mato Grosso do Sul.
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