Campo Grande (MS), Quinta-feira, 25 de Junho de 2026

Artigo / Opinião

Brasil da hipocrisia

25/06/2026

08:15

Pedro Cardoso da Costa

Pedro Cardoso da Costa

Trata-se de um mal de cunho subjetivo que domina o Brasil de ponta a ponta, em todas as camadas sociais e em todos os ambientes e grupos sociais.

Na televisão, nas emissoras de rádio e nos sites de jornais de grande circulação, as empresas de apostas on-line aparecem como patrocinadoras dos programas mais populares e, ao mesmo tempo, surge uma recomendação subliminar, em letras miúdas, informando que as apostas são destinadas a adultos, podem causar dependência e acarretar outras mazelas.

Não existe sequer um filtro quanto ao público específico dos programas mais assistidos, nem uma preocupação em saber se pessoas mais simples merecem uma linguagem mais direta.

Os órgãos oficiais que tratam desse assunto deveriam analisar melhor essas recomendações e confrontá-las com a liberdade de expressão. Quando se adverte que algo vicia, é curioso observar que beber também vicia e nunca foi merecedor dessa observação. Comer salgadinho também vicia, mas não há ressalvas nas embalagens. E, se a pessoa é maior de idade, que jogue quanto quiser e assuma os riscos inerentes à sua capacidade de decisão, até porque responder pelos próprios atos se estende a todas as ações e independe, muitas vezes, da própria vontade.

No futebol, a hipocrisia é a regra. Qualquer falha do juiz a favor do seu time está correta, por mais grave que seja. Pequenas falhas contra são o fim do mundo. E, entre dezenas de incoerências, destaca-se a “faltinha”. “Esse juiz não marca qualquer faltinha”. Deveria marcar. Não existem faltinhas. É ou não é falta.

Nalgumas áreas, a hipocrisia passou a fazer parte do modo generalizado de agir, sendo mais evidente na política. Em menor grau, ela se estende a todos os Poderes.

Como costuma dizer um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a situação tem focinho de porco, orelha de porco, parece um porco; e é porco.

Há diversos exemplos disso. Foram encontradas casas cheias de dinheiro. Um político comprou um terreno e se esqueceu de depositar mais de R$ 470 mil no banco, mas não apresentou uma linha sequer de contrato de compra e venda. No caso mais recente, acharam milhares de dólares e euros em um apartamento, e a explicação foi a de que esse dinheiro havia sido recebido em diárias e na compra de moedas estrangeiras. Entretanto, são valores estratosféricos guardados em espécie dentro de casa, numa época em que não se pode usar um celular, um telefone móvel, na rua. Enquanto isso, pessoas vendem bugigangas nos faróis e, nos ônibus e trens, salgadinhos são pagos via pix.

Na televisão e na imprensa em geral, repete-se o festival de hipocrisias. Nos exemplos acima, a mídia divulgava as informações utilizando a expressão “endereços ligados” a fulano, para não mencionar que, no exemplo do porco, todos os indícios apontavam para o fato de que se tratava do endereço do cidadão da fortuna proveniente de diárias, que também não apresentou, até o momento, sequer um rabisco que comprove a aquisição da montanha de dinheiro.

“Pesquisa é um retrato do momento”, costumam repetir quando um candidato favorito aparece mal em um levantamento, como se pudesse existir pesquisa do futuro. Ainda que isso fosse possível, as pessoas poderiam mudar de opinião posteriormente.

A cereja do bolo são parlamentares que, na média, não trabalham nem em regime 1x6, recebem benesses financeiras que se aproximam de um milhão de reais por mês e, ainda assim, criam empecilhos para não aprovar uma jornada semanal de 5x2 para milhões de pessoas que recebem um salário mínimo. Detalhe: eles conseguem juntar milhares de dólares e euros apenas com diárias recebidas. Isso reforça a tese de um colunista que costumava dizer que o Brasil perde muito mais quando os parlamentares trabalham.

Pedro Cardoso da Costa
Interlagos – SP


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