Campo Grande (MS), Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

Artigo / Opinião

Intervenção no Consórcio Guaicurus não é a solução definitiva

O sistema atual opera sobre uma lógica urbana que deixou de existir há décadas, e por isso fracassa.

17/06/2026

14:15

Fayez José Rizk*

Fayez José Rizk*

Leio que a Prefeita Municipal decretou a intervenção no Consórcio Guaicurus.

Mas como sói acontecer ultimamente, espero que, mesmo acertando, não esteja errando.

A intervenção certamente eleva a expectativa da população na resolução desse problema gravíssimo que é a deterioração do sistema de transporte público por ônibus.

Mas, pelo que leio, esta ação não vai resolver o problema.

Estou cansado de escrever e rouco de tanto dizer: o que está errado é o planejamento das linhas desse sistema.

Podem colocar novos ônibus, mesmo os ultrapassados movidos a diesel, fazer mudanças administrativas e financeiras que, com esse sistema de linhas, afirmo, essas mudanças não vão resolver o problema.

O sistema atual é a degeneração de um planejamento feito em 1977 e implantado no começo da década de 90.

A concepção desse sistema foi feita para uma Lei de Ocupação e Uso do Solo Urbano (LOUS) que privilegiava o adensamento populacional em torno de eixos de transporte, com terminais ao longo desses eixos, estes alimentados por rede de ciclovias e calçadas acessíveis e, coroando, um terminal central do sistema.

As linhas de ônibus, divididas em troncais e alimentadoras, se conectariam por enlaces. Assim, o usuário do sistema sairia da sua casa e alcançaria o terminal mais próximo, ou um ponto, a pé ou de bicicleta, acessaria uma linha e se dirigiria a outro terminal para acessar uma nova linha até seu destino, isso em movimentos coordenados e rápidos.

Infelizmente, a concepção de ocupação do solo urbano mudou, para muito pior, e esse sistema, que funcionou razoavelmente bem durante alguns anos, foi se deteriorando.

Eis o fulcro da questão: um sistema que funcionou para uma lógica de ocupação e uso do solo urbano não pode funcionar para uma ocupação e uso, na minha opinião, desordenado, como o de hoje.

O golpe final no sistema antigo foi a desativação do terminal central, na antiga rodoviária, e prova disso é a deterioração do Centro: o desarranjo das linhas elevou o preço das passagens e as pessoas “fugiram” ou ficaram na periferia.

Assim, não guardo muita expectativa quanto a essa intervenção.

Há que se planejar um novo sistema de transportes, juntamente com uma revisão urgente do Plano Diretor e de uma nova Lei de Ocupação e Uso do Solo Urbano.

Ônibus novos em sistema velho vão produzir os mesmos resultados: passagem cara e percursos longos.

Planejar é preciso.

* Fayez José Rizk é arquiteto e urbanista.


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