Cultura / Luto
Morre Guimarães Rocha, poeta e defensor da literatura sul-mato-grossense
Escritor, professor, compositor e militar, ele publicou 21 livros e ocupava a cadeira número 4 da ASL
11/06/2026
09:00
DA REDAÇÃO
Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, escritor tinha 69 anos e enfrentava uma doença rara
Morreu na madrugada desta quinta-feira, 11 de junho, em Campo Grande, o escritor e poeta Antonio Alves Guimarães, conhecido no meio literário como Guimarães Rocha. Ele tinha 69 anos, completaria 70 anos em menos de um mês e enfrentava uma amiloidose, doença rara que provoca o acúmulo de proteínas anormais em órgãos e tecidos.
Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), onde ocupava a cadeira número 4, Guimarães Rocha era considerado uma das vozes importantes da literatura regional. Também foi membro fundador da UBE-MS (União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul) e dedicou boa parte da vida à valorização da produção cultural do Estado.
Nascido no Ceará, Guimarães chegou a Mato Grosso do Sul na década de 1970, como muitos nordestinos que buscaram novas oportunidades na região. Viveu em Vicentina, passou por Dourados e se estabeleceu em Campo Grande no início dos anos 1980.
Além da literatura, construiu carreira na Polícia Militar, onde ingressou como soldado e chegou ao posto de tenente-coronel da reserva. Também atuou como professor de Literatura Brasileira, compositor e incentivador de projetos culturais ligados à palavra, à música e à identidade sul-mato-grossense.
Ao longo da trajetória, publicou mais de 20 livros, entre poesia e prosa. Em 2001, lançou a Coleção Recorde Guimarães Rocha, composta por 15 obras. Também registrou trabalhos poético-musicais, como o CD Encanto, e, em 2021, transformou poemas em forró e baião no EP Nosso Amor, em parceria com o Trio Malaquias.
A produção de Guimarães transitava entre o livro, a música e a oralidade. Teve composições gravadas por artistas sul-mato-grossenses, venceu concursos literários e percorreu municípios levando poesia a diferentes públicos. No meio militar, recebeu medalhas de mérito, e na vida pública foi homenageado com os títulos de cidadão Vicentinense, cidadão Campo-Grandense e com a Insígnia do Mérito Legislativo Campo-Grandense.
Segundo o genro, o advogado Rafael Almeida, Guimarães Rocha lutou com coragem contra a doença. O diagnóstico havia sido feito havia algum tempo e, nos últimos meses, o quadro de saúde se agravou. “Ele lutou bravamente com a doença. Nunca reclamou”, afirmou.
Para a família, o legado do escritor vai além da obra publicada. Rafael Almeida destacou a simplicidade, a fé e a determinação como marcas pessoais de Guimarães. “O meu sogro é um exemplo em todos os aspectos. Foi um homem simples. O cearense que chegou em Mato Grosso do Sul na década de 70 em busca de novas perspectivas. Não tinha nada que ele acreditasse ser impossível. O ‘não’ nunca existiu para ele”, disse.
A casa do poeta, segundo familiares, era ponto de encontro para filhos, noras, genros, sobrinhos e amigos. “A casa dele era um porto seguro. Era uma casa que acolhia, essa é a principal marca do Guimarães”, relatou Rafael. Ele também lembrou que a poesia fazia parte da rotina familiar. “Era aquele poeta que, às vezes, a gente estava em um almoço de domingo e, do nada, saía um poema declamado e todo mundo se emocionava.”
Guimarães Rocha também era reconhecido pelo orgulho com que defendia a literatura produzida em Mato Grosso do Sul. Grande conhecedor da cultura regional, fazia questão de valorizar autores, músicos e artistas locais. Para pessoas próximas, queria ver a produção literária do Estado ocupando mais espaço e recebendo o reconhecimento merecido.
O escritor deixa a esposa Rosa, com quem viveu décadas de união, e quatro filhos. O velório será realizado nesta quinta-feira, a partir das 17h, no Cemitério Jardim das Palmeiras, localizado na Avenida Tamandaré, 6934, em Campo Grande. O sepultamento está previsto para sexta-feira, 12 de junho, às 10h, no mesmo local.
A morte de Guimarães Rocha representa uma perda importante para a cultura sul-mato-grossense. Sua trajetória como poeta, professor, militar, compositor e membro da ASL deixa um legado ligado à literatura, à memória regional e à defesa da identidade cultural de Mato Grosso do Sul.
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