Campo Grande (MS), Segunda-feira, 27 de Julho de 2026

Polícia / Justiça

Bernal nega intenção de matar fiscal e diz que acreditou estar diante de homens armados

Ex-prefeito prestou depoimento no processo sobre a morte de Roberto Mazzini e afirmou que entrou no imóvel para defender a casa e a família

27/05/2026

17:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

O ex-prefeito de Campo Grande Alcides Bernal, do PP-MS, prestou depoimento no processo que apura a morte do fiscal aposentado Roberto Carlos Mazzini, ocorrida em março deste ano, durante uma tentativa de posse de um imóvel arrematado em leilão. Em audiência, Bernal negou ter agido com intenção de matar e afirmou que acreditou estar diante de dois homens armados dentro da casa.

O depoimento foi dado à 1ª Vara do Tribunal do Júri, presidida pelo juiz Luiz Alberto Garcete. Visivelmente abalado, o ex-prefeito disse que entrou no imóvel com a arma em mãos porque imaginou que a residência estivesse sendo invadida.

Segundo Bernal, ao chegar ao local, viu Roberto Mazzini e o chaveiro Maurílio da Silva Cardoso dentro da casa. O chaveiro havia sido ouvido anteriormente como testemunha de acusação.

“Se eles tivessem ficado quietos, eu não ia disparar”, afirmou Bernal durante o depoimento.

O ex-prefeito sustentou que, naquele momento, acreditou que os dois homens estivessem armados. “E digo isso com toda sinceridade: naquele momento, eu achei que os dois estavam armados. Para mim, eles portavam armas”, declarou.

A morte ocorreu quando Mazzini tentava tomar posse do imóvel que havia arrematado em leilão e que anteriormente pertencia a Bernal. O ex-prefeito afirmou que não sabia que se tratava de uma pessoa que havia comprado a propriedade por meio de procedimento formal.

Segundo ele, caso tivesse conhecimento da situação, teria buscado a via judicial para discutir a posse do imóvel. Bernal também afirmou que a casa já havia sido alvo de furto anteriormente e que, por isso, acreditou estar diante de criminosos.

“Uma pessoa de boa-fé, alguém agindo corretamente, buscaria uma ordem judicial e estaria acompanhada de oficial de Justiça ou da polícia”, afirmou.

Durante a audiência, o juiz questionou Bernal sobre a dinâmica dos disparos. O ex-prefeito disse que não percebeu, no momento, que Roberto Mazzini havia caído após o primeiro tiro.

“Eu sinceramente não vi na hora. Quando aconteceu, fui tentar olhar se ele estava vivo ou não. Foi tudo muito rápido”, declarou.

O magistrado também abordou o laudo que indica a possibilidade de um segundo disparo quando a vítima já estava caída. Bernal negou essa versão e afirmou que estava em estado emocional alterado.

“Doutor, eu posso afirmar categoricamente que, naquele momento, as emoções estavam à flor da pele. Eu tremia, e vivo tremendo agora”, disse.

O ex-prefeito negou ter atirado em Mazzini já caído. “Eu nunca atirei em um bicho caído, vou atirar em um ser humano? Deus me livre!”, afirmou.

Bernal também disse que os disparos ocorreram em meio ao deslocamento dos dois, quando ele e a vítima caminhavam um em direção ao outro. Segundo o ex-prefeito, a curta distância entre ambos explicaria a dinâmica apontada no processo.

“Se eu tivesse atirado nele deitado e tivesse vontade de matar, pelo amor de Deus, seria na cabeça ou no peito”, declarou.

Ao responder às perguntas do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Bernal afirmou que, após perceber a gravidade da situação, acionou o Samu, chamou a polícia e buscou ajuda de pessoas próximas ao local para socorrer a vítima.

“Doutor, eu tenho 61 anos. Nunca prendi, nunca fiz nada de mal. Todas as vezes que foi necessário eu fui à Justiça. Quando vi aquele homem caindo, chamei o Samu, chamei a polícia, saí na calçada, chamei o pessoal da New Line para socorrer aquele senhor. Eu não vivo para fazer maldade para quem quer que seja”, afirmou.

O ex-prefeito também foi questionado sobre a arma usada no crime, um revólver calibre 38. Conforme informações discutidas na audiência, o registro de porte estava vencido desde 3 de março de 2019. A autorização havia sido expedida em 3 de março de 2016 para defesa pessoal.

Bernal negou ter conhecimento da irregularidade e disse que não tinha o hábito de andar armado.

“Eu não tenho costume de andar armado, nem de carregar arma comigo. Teríamos que consultar o processo, mas eu acreditava que a situação da arma estava regularizada. Eu não fazia uso dela no dia a dia”, declarou.

Ao final do depoimento, o ex-prefeito mencionou o impacto do caso sobre as duas famílias envolvidas. Ele voltou a afirmar que não teve intenção de matar e que agiu acreditando estar protegendo sua residência.

“Hoje tem uma família chorando a ausência do seu ente querido, e tem outra família com o seu ente querido atrás das grades. Eu não fui homem de matar o outro. Eu fui defender minha casa e defender minha família”, afirmou.

O caso segue em tramitação na 1ª Vara do Tribunal do Júri, com análise das versões apresentadas pela acusação, pela defesa e pelas testemunhas ouvidas no processo.


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