Campo Grande (MS), Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

Saúde / Finanças

Balanço da Santa Casa aponta déficit de R$ 124,5 milhões e risco à continuidade das operações

Auditoria cita passivo de curto prazo elevado e patrimônio líquido negativo; hospital afirma ter mais de R$ 714 milhões a receber do poder público

06/07/2026

16:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A Santa Casa de Campo Grande encerrou 2025 com déficit de R$ 124,582 milhões, valor equivalente a uma perda média de aproximadamente R$ 341 mil por dia. Os números aparecem nas demonstrações financeiras anuais divulgadas nesta segunda-feira e revelam um cenário de forte pressão sobre a capacidade financeira do maior hospital de Mato Grosso do Sul.

No parecer que acompanha o balanço, os auditores independentes apontam uma “incerteza relevante” sobre a continuidade operacional da instituição. O alerta considera principalmente o desequilíbrio entre as obrigações de curto prazo e os recursos disponíveis para pagamento.

Em 31 de dezembro de 2025, o passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 227,215 milhões. O patrimônio líquido estava negativo em R$ 639,469 milhões, indicando que o conjunto das dívidas e compromissos ultrapassava de forma expressiva o valor dos bens e direitos contabilizados pelo hospital.

Hospital diz ter R$ 714 milhões a receber

Apesar do resultado negativo, a direção da Santa Casa afirma possuir créditos superiores a R$ 714,259 milhões contra entes públicos, incluindo a Prefeitura de Campo Grande, o Governo de Mato Grosso do Sul e a União.

A maior parcela está ligada a uma ação judicial sobre o reequilíbrio econômico-financeiro dos serviços prestados entre 7 de outubro de 2011 e maio de 2018. O valor original da indenização seria de R$ 275,593 milhões, mas, segundo a administração, a atualização até dezembro de 2025 elevou o crédito para aproximadamente R$ 667,87 milhões.

Outro processo envolve cerca de R$ 46,381 milhões relacionados ao pagamento dos tetos de produção hospitalar durante a pandemia de Covid-19. A Santa Casa sustenta que uma lei federal de abril de 2020 determinou o repasse integral dos valores, mas o município teria adotado médias históricas para calcular os pagamentos.

A expectativa de receber esses recursos é apresentada pela direção como um dos elementos capazes de aliviar o endividamento e reorganizar as finanças da instituição.

Empréstimos passam de R$ 261 milhões

Enquanto aguarda o desfecho dos créditos judiciais, o hospital mantém uma série de empréstimos bancários para financiar suas operações. As dívidas financeiras somam mais de R$ 261,7 milhões, com taxas que chegam a 1,85% ao mês.

No Banco Daycoval, a Santa Casa contratou três operações que totalizam R$ 17 milhões, com pagamento previsto em cinco anos. As taxas variam entre 1,56% e 1,85% ao mês, o que representa mais de R$ 250 mil mensais em juros, conforme os dados apresentados.

A maior operação foi contratada com a Caixa Econômica Federal, em janeiro de 2024, no valor de R$ 248 milhões, com juros de 1,36% ao mês.

Também consta um empréstimo de R$ 10 milhões contratado em novembro de 2019 junto ao Sicoob, com taxa de 0,55% ao mês, a menor entre as operações mencionadas no balanço.

O peso dos juros contribui para ampliar o desequilíbrio financeiro e compromete parte dos recursos que poderiam ser direcionados ao atendimento hospitalar.

Déficit aumentou em relação a 2024

O prejuízo registrado em 2025 foi superior ao do exercício anterior. Em 2024, o déficit havia alcançado cerca de R$ 98,3 milhões.

Com a sequência de resultados negativos, o déficit acumulado ultrapassou R$ 544 milhões. O hospital ainda possui aproximadamente R$ 189,817 milhões em tributos atrasados, atualmente incluídos em programas de parcelamento.

A combinação de déficits operacionais, empréstimos, impostos parcelados e despesas financeiras pressiona o fluxo de caixa e reduz a capacidade de pagamento no curto prazo.

Auditoria aponta risco relevante

O parecer da BDO RCS Auditores Independentes destaca que a situação financeira pode gerar dúvida significativa sobre a continuidade das atividades.

Essas condições indicam a existência de incerteza relevante, que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da entidade”, registra o documento assinado pelo contador José Martins Alves.

A afirmação não representa uma declaração formal de falência ou encerramento. Os próprios auditores esclarecem que cabe à administração avaliar se a instituição dispõe de condições para continuar operando, considerando fontes de financiamento, créditos a receber, acordos com o poder público e outras alternativas.

Como entidade hospitalar, a Santa Casa não pode ser analisada exatamente como uma empresa comum. A instituição desempenha papel central na rede pública e atende pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde, o que torna qualquer interrupção um problema de grande impacto para Campo Grande e para o interior do Estado.

Continuidade dependerá de recursos e reorganização financeira

O balanço deixa evidente que o futuro financeiro do hospital dependerá da entrada dos créditos reivindicados, da renegociação de dívidas e da capacidade de reduzir o déficit recorrente.

Caso os valores judiciais não sejam recebidos no prazo esperado, a Santa Casa poderá enfrentar dificuldades ainda maiores para honrar salários, fornecedores, tributos, financiamentos e custos relacionados à assistência médica.

A administração sustenta que os créditos reconhecidos judicialmente são suficientes para mudar o cenário, mas a auditoria reforça que, enquanto os recursos não forem efetivamente incorporados ao caixa, permanece a incerteza sobre a capacidade de continuidade.

O quadro amplia a pressão por uma solução envolvendo o hospital e os governos municipal, estadual e federal, responsáveis por parte expressiva dos repasses que sustentam os atendimentos realizados pela instituição.

 


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