Campo Grande (MS), Sábado, 13 de Junho de 2026

Política / Investigação

Perícia privada não detalha destino de R$ 75 milhões usados em filme sobre Bolsonaro

Documento apresentado pela produtora de Dark Horse informa valores no Brasil e nos EUA, mas não identifica os destinatários das transferências

13/06/2026

07:30

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

A perícia privada apresentada pela Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, não esclarece quem recebeu os recursos usados na produção. O documento cita transferências de US$ 13,3 milhões, o equivalente a cerca de R$ 75 milhões, mas não detalha os destinatários finais dos pagamentos.

De acordo com o material, a maior parte do dinheiro teria sido aplicada nos Estados Unidos. O valor informado para gastos fora do país chega a R$ 54,2 milhões. No Brasil, as despesas somariam R$ 20,9 milhões, equivalentes a US$ 3,7 milhões.

A documentação foi reunida pela defesa de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável por Dark Horse, em um processo que envolve a ONG Instituto Conhecer Brasil. A entidade, representada pela empresária, é investigada por suspeita de desvio de dinheiro público em um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo.

Segundo a perícia, a etapa brasileira da produção foi classificada como “produção e filmagem”. Nessa fase, teriam sido incluídos gastos com contratação de elenco internacional, cachês, diárias, transporte, cenografia, passagens aéreas e outras despesas operacionais ligadas ao filme.

Já os gastos atribuídos aos Estados Unidos aparecem com menos detalhamento. O laudo menciona etapas da produção de forma genérica, sem explicar com precisão quais serviços foram contratados, quem recebeu os pagamentos e como os valores foram distribuídos.

Ainda conforme o documento, até 10 de junho, o fundo Havengate Development LP, usado para captação de recursos, havia enviado os US$ 13,3 milhões ao projeto. No Brasil, os valores destinados ao filme foram movimentados por meio de uma conta no Banco do Brasil. Dos R$ 20,9 milhões usados no país, aproximadamente R$ 18,4 milhões teriam sido transferidos via Pix.

A perícia, realizada pelo Instituto de Perícia Investigativa, afirma que os recursos vinculados ao projeto teriam origem privada. O documento cita contratos de investimento, extratos bancários, documentos de remessa e registros financeiros disponibilizados para análise.

O caso ganhou novo desdobramento após a revelação de que o banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, enviou dinheiro para a produção por meio do fundo Havengate Development. A partir disso, a Polícia Federal passou a apurar se parte dos recursos foi usada para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

O fundo tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, do advogado Paulo Calixto, que representa Eduardo. O ex-deputado vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e é réu no Supremo Tribunal Federal por acusações de coação e obstrução da Justiça ligadas à atuação contra autoridades brasileiras.

Na declaração de gastos, consta que o orçamento inicial aprovado para Dark Horse era de US$ 16 milhões, cerca de R$ 89,7 milhões. O valor é inferior aos R$ 134 milhões que teriam sido negociados pelo senador Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, conforme reportagem do site The Intercept Brasil.

A reportagem citou diálogos envolvendo Vorcaro, o cunhado dele, Fabiano Zettel, e o empresário Thiago Miranda, nos quais foram discutidos possíveis fluxos de pagamento para a produção. Um dos modelos previa 12 parcelas de US$ 1,6 milhão e outras duas de US$ 2 milhões, totalizando US$ 24 milhões.

Em áudio divulgado, Flávio Bolsonaro demonstrou preocupação com parcelas atrasadas do patrocínio ao filme. A conversa ocorreu em 16 de novembro, um dia antes da primeira prisão de Daniel Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação sobre fraude bilionária no mercado financeiro atribuída ao banco comandado pelo empresário.

Após a divulgação, Flávio Bolsonaro confirmou a autenticidade do áudio, mas afirmou que os pagamentos feitos por Vorcaro foram legais e não envolveram contrapartida. Segundo as informações apresentadas, o valor efetivamente pago ao filme pelo ex-banqueiro, por meio da empresa Entrepay, foi de US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões.

A falta de detalhamento sobre os destinatários dos recursos mantém o caso sob questionamento. O ponto central da investigação é saber como o dinheiro foi movimentado, quais despesas foram efetivamente comprovadas e se houve ligação entre os repasses ao filme e outros interesses políticos ou financeiros.


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