Política / Religião
Flávio Bolsonaro usa Marcha para Jesus para atacar governo e fala em “guerra espiritual”
Senador participou pela primeira vez do evento em São Paulo, ao lado de Tarcísio de Freitas, André Mendonça e Jorge Messias
04/06/2026
11:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, do PL, usou sua participação na Marcha para Jesus, nesta quinta-feira, 4 de junho, em São Paulo, para fazer um discurso com forte tom religioso e político. Diante dos participantes, ele afirmou que o país vive uma “guerra espiritual” e disse que o “mal” seria expulso do governo brasileiro ainda neste ano.
A fala ocorreu durante a 34ª edição da Marcha para Jesus, um dos maiores eventos evangélicos do país. Esta foi a primeira vez que Flávio Bolsonaro participou da celebração, que reuniu lideranças religiosas, parlamentares e autoridades públicas.
“Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano. Em nome do nosso senhor Jesus, amém”, declarou o senador aos fiéis.
Mais cedo, em entrevista aos organizadores do evento, Flávio Bolsonaro já havia reforçado a mesma mensagem. Em cima de um trio elétrico, ele afirmou que gostaria que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, estivesse presente na marcha.
“Às vezes a gente acorda com o coração meio apertado, tem que ajoelhar e pedir a Deus para dar aquela força e alegria no coração. E hoje é um dia que está explodindo aqui. Queria muito que meu pai estivesse aqui presente, mas vamos lutar por ele”, afirmou.
O ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília. Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A edição deste ano da Marcha para Jesus também contou com a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes, do MDB. Parlamentares de diferentes partidos também participaram do evento.
Entre as autoridades presentes estavam ainda o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, que recentemente teve sua indicação ao STF rejeitada pelo Senado Federal.
A participação de Flávio Bolsonaro ao lado de Tarcísio de Freitas marcou um reencontro público entre os dois. Nas últimas semanas, o governador paulista vinha mantendo uma postura mais distante do senador, em meio à repercussão de um áudio em que Flávio cobra dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no escândalo envolvendo o Banco Master.
O evento em São Paulo ocorreu logo após uma agenda de Flávio Bolsonaro em Minas Gerais, realizada entre segunda-feira, 1º de junho, e quarta-feira, 3 de junho. No estado, o senador recebeu o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte na Câmara Municipal, visitou pontos turísticos da capital mineira e passou por cidades como Contagem, Betim e Patos de Minas, no Alto Paranaíba.
A viagem a Minas foi interpretada nos bastidores políticos como parte da articulação nacional do senador para 2026. O estado é visto como estratégico para a eleição presidencial e também concentra disputas de influência entre grupos ligados aos pré-presidenciáveis Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD.
Além da movimentação religiosa e eleitoral, Flávio Bolsonaro tenta reduzir o desgaste provocado pela ameaça de novas tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. O senador tem buscado se afastar da acusação de que teria incentivado sanções comerciais ao Brasil após se reunir com o presidente americano Donald Trump, na Casa Branca.
Nesta semana, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu duas investigações com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Os relatórios apontam supostas práticas desleais do Brasil e recomendam tarifas de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros.
As conclusões foram divulgadas cerca de uma semana depois do encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. No Palácio do Planalto, a leitura é de que a família do ex-presidente Jair Bolsonaro teria atuado para estimular pressões externas contra o Brasil.
Aliados do governo passaram a usar nas redes sociais o termo “Tariflávio”, em uma tentativa de associar o senador às possíveis medidas comerciais americanas. A expressão também passou a ser usada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que intensificou críticas à oposição.
Durante reunião ministerial realizada na quarta-feira, 3 de junho, Lula acusou adversários de articularem sanções contra o país por interesse eleitoral e chamou Flávio Bolsonaro de “traidor da pátria”.
As novas tarifas ainda dependem de etapas internas nos Estados Unidos e do aval de Donald Trump. Caso sejam confirmadas, poderão substituir ou se somar a medidas comerciais anunciadas anteriormente contra o Brasil.
Na prática, a participação de Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus reuniu três frentes da pré-campanha: a aproximação com o eleitorado evangélico, a tentativa de recompor pontes com aliados da direita e a busca por conter o desgaste provocado pela crise envolvendo as tarifas americanas.
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