Campo Grande (MS), Terça-feira, 21 de Julho de 2026

Polícia / Justiça

Prisão de Gerson Palermo na Bolívia começou com investigação sobre sequestro da própria filha em Campo Grande

Foragido desde 2020, líder do PCC foi localizado após sete meses de apuração iniciada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul

26/05/2026

15:30

DA REDAÇÃO

Polícia da Bolívia divulgou foto de Gerson Palermo após prendê-lo nesta terça-feira, 26 de maio ©FELCN/Divulgação

A prisão do narcotraficante Gerson Palermo, apontado como liderança do PCC, nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foi resultado de uma investigação iniciada há cerca de sete meses pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. A apuração começou em outubro do ano passado, após o sequestro da própria filha do traficante, em Campo Grande.

Segundo a investigação, a jovem, de 25 anos, foi mantida em cativeiro em uma casa na região das Moreninhas, onde sofreu agressões físicas e psicológicas. Depois de ser libertada, ela colaborou com a Garras, a Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros, na identificação e prisão dos envolvidos no crime.

De acordo com a Polícia Civil, o sequestro teria sido ordenado por Gerson Palermo em meio a uma disputa por R$ 50 mil, dinheiro que, conforme a apuração, teria origem no narcotráfico. A vítima foi abordada ao sair do trabalho, na região central da Capital. Antes disso, o pai havia ligado dizendo que enviaria alguém para entregar uma quantia em dinheiro destinada a ajudar no tratamento de saúde da avó, que é acamada.

Os sequestradores estavam em um carro e disseram que queriam receber dinheiro do “velho”, apelido atribuído a Palermo. Em seguida, a jovem foi levada ao cativeiro. Durante o período em que permaneceu sob domínio do grupo, os criminosos enviaram fotos e mensagens ao marido dela, exigindo pagamento para libertá-la.

O caso chegou à polícia depois que o marido acionou a Garras. Durante as diligências, a vítima foi libertada na região das Moreninhas e, já em segurança, confirmou aos policiais que o pai havia orquestrado o sequestro. Ela também informou que Gerson Palermo estava escondido na Bolívia, acompanhado da mãe dela.

A partir da elucidação do sequestro, a investigação passou a ser conduzida com apoio do Núcleo de Inteligência Policial da DEPCA, a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, em atuação integrada com a Polícia Federal e a FELCN, força boliviana de combate ao narcotráfico. O trabalho permitiu identificar a localização de Palermo na região de Santa Cruz de la Sierra, maior cidade da Bolívia.

Após meses de monitoramento e troca de informações entre autoridades brasileiras e bolivianas, a polícia da Bolívia deflagrou a operação que resultou na prisão do foragido. Palermo deverá ser entregue às autoridades brasileiras para cumprimento das condenações que somam aproximadamente 126 anos de prisão.

Apontado como integrante do Primeiro Comando da Capital, Palermo é ligado, segundo as autoridades, ao tráfico internacional de drogas, especialmente ao transporte de cocaína da Bolívia para o Brasil e outros destinos. A investigação também associa o narcotraficante à lavagem de dinheiro obtido com atividades ilegais.

A trajetória criminal de Palermo começou a aparecer em registros policiais ainda na década de 1980. Aos 22 anos, ele foi preso pela Polícia Federal durante abordagem na Via Dutra, perto de Resende, no Rio de Janeiro, em um caso envolvendo 100 quilos de maconha transportados da fronteira entre Paraguai e Brasil, por Ponta Porã, com destino ao Rio.

Nos anos seguintes, ele voltou a ser investigado por tráfico internacional. Em 1990, foi apontado como um dos responsáveis pelo envio de drogas do Paraguai ao Brasil, em esquema que usava aviões e caminhões. No mesmo ano, acabou preso conduzindo um caminhão carregado com éter e acetona, produtos usados no refino de cocaína.

O episódio mais conhecido da ficha criminal ocorreu em 16 de agosto de 2000, quando Palermo liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp. A aeronave havia saído de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba, mas foi tomada por criminosos logo após a decolagem. O piloto foi obrigado a pousar em Porecatu, no norte do Paraná, onde a quadrilha roubou malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões.

Pelo sequestro do avião, Palermo foi condenado a 66 anos e 9 meses de prisão. Mesmo assim, continuou sendo alvo de novas operações. Em 2007, foi preso em Campo Grande sob suspeita de coordenar uma quadrilha responsável por transportar 1,4 tonelada de maconha em um caminhão.

Em 2017, ele foi apontado como principal alvo da Operação All In, da Polícia Federal, contra uma organização de tráfico internacional que utilizava aeronaves e caminhões. A Justiça Federal em Campo Grande condenou integrantes do grupo liderado por Palermo pelo transporte de mais de 800 quilos de cocaína com origem na Bolívia.

A fuga mais recente começou em 2020, durante a pandemia de covid-19, quando Palermo deixou o sistema prisional após decisão judicial que concedeu prisão domiciliar. O caso teve forte repercussão porque envolveu o desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, posteriormente investigado por suspeita de irregularidades na concessão do benefício.

A prisão na Bolívia recoloca Gerson Palermo no centro de uma sequência de casos que envolve tráfico internacional, sequestro, fuga, condenações extensas e suspeita de venda de decisão judicial. Para as autoridades, a captura encerra uma etapa importante da investigação, mas ainda deixa em aberto a apuração sobre como um criminoso condenado a quase 126 anos conseguiu permanecer fora do alcance do sistema de Justiça por cerca de seis anos.


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