Polícia / Justiça
Líder do PCC condenado a 126 anos é preso na Bolívia após seis anos foragido
Gerson Palermo, apontado como liderança da facção em MS, ficou conhecido por sequestro de avião e por caso que derrubou desembargador do TJMS
26/05/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O narcotraficante Gerson Palermo, apontado como uma das lideranças do PCC em Mato Grosso do Sul, foi preso nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, na Bolívia, país que faz fronteira com o Estado pela região de Corumbá. Ele estava foragido desde 2020 e possui condenações que somam 126 anos de prisão.
Segundo as informações iniciais, Palermo deverá ser entregue à Polícia Federal, em Mato Grosso do Sul. A prisão encerra um período de quase seis anos de fuga de um criminoso com histórico de tráfico internacional de drogas, liderança de facção, fugas e episódios de grande repercussão nacional.
O nome de Gerson Palermo ficou marcado por dois casos de forte impacto. O primeiro foi o sequestro de um avião da Vasp, em 16 de agosto de 2000. O segundo foi a decisão judicial que o colocou em prisão domiciliar durante a pandemia de covid-19, em episódio que levou à queda do desembargador aposentado Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
Em 21 de abril de 2020, durante o feriado de Tiradentes, Palermo obteve prisão domiciliar com monitoramento eletrônico após a defesa alegar que ele integrava o grupo de risco para a covid-19. Os advogados sustentaram que ele tinha mais de 60 anos, além de diabetes e hipertensão.

A liminar foi concedida durante o plantão do então desembargador Divoncir Schreiner Maran. No dia seguinte, 22 de abril de 2020, o desembargador Jonas Hass Silva Júnior, relator do processo, revogou a decisão e determinou o retorno de Palermo à prisão. Antes disso, porém, o traficante rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.
O episódio passou a ser investigado por suspeita de irregularidades na concessão da decisão. A apuração apontou indícios de que a liminar teria sido preparada antes mesmo da distribuição formal do habeas corpus, o que chamou atenção dos investigadores.
De acordo com elementos citados na investigação, um chefe de gabinete ligado a Divoncir Maran teria pedido a uma servidora que começasse a elaborar a minuta da decisão antes da chegada oficial do processo. Também foram apontadas mensagens internas sobre a fragilidade jurídica da medida, inclusive pela ausência de laudos médicos que comprovassem as doenças alegadas pela defesa de Palermo.
A investigação da Polícia Federal também passou a analisar o possível caminho do dinheiro. Um dos focos foi a suspeita de ocultação de valores por meio de familiares do magistrado aposentado. O filho de Maran, Vânio Maran, foi citado como possível operador financeiro, com movimentação de R$ 1,074 milhão em nove meses, apesar de renda mensal declarada de R$ 7,6 mil no período.
Outro ponto investigado envolve operações rurais suspeitas, chamadas de “boi de papel”, que teriam sido usadas para simular compra e venda de gado e dar aparência legal a recursos. A defesa de Vânio Maran negou as acusações e afirmou que ele atua no ramo agropecuário.
A esposa do desembargador aposentado, Viviane Alves Gomes de Paula, também aparece na apuração. Relatórios mencionam indícios de evolução patrimonial incompatível e pagamentos em dinheiro vivo durante a construção de uma casa de alto padrão em Campo Grande.
Segundo a investigação, o imóvel teria custado mais de R$ 2,1 milhões. Entre os serviços citados estão móveis planejados avaliados em cerca de R$ 650 mil e compra de ferragens de aproximadamente R$ 40 mil. Para os investigadores, pagamentos em espécie e encontros presenciais com fornecedores poderiam indicar tentativa de evitar registros formais.
Antes do caso judicial, Palermo já era conhecido nacionalmente pelo sequestro de um Boeing da Vasp, em 2000. A aeronave havia decolado do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, com destino a Curitiba, quando foi tomada pela quadrilha.
O piloto foi obrigado a pousar em uma pista no município de Porecatu, no Paraná. No local, o grupo forçou a abertura do compartimento de carga e roubou nove malotes do Banco do Brasil, com cerca de R$ 5,5 milhões.
Palermo também acumulava passagens policiais desde 1991. Há cerca de três décadas, seu nome chegou a aparecer em 50 mil cartazes de “procura-se” espalhados pela Polícia Federal em todo o Brasil.
Ele foi um dos principais alvos da Operação All In, deflagrada pela Polícia Federal em 2017, e permaneceu preso até 2020, quando conseguiu a prisão domiciliar durante a pandemia e fugiu logo depois.
Nos últimos anos, o narcotraficante voltou a aparecer em investigações e reportagens policiais, inclusive por acusação envolvendo o sequestro da própria filha. Agora, com a prisão na Bolívia, a expectativa é que ele seja transferido para o Brasil e volte a cumprir pena no sistema prisional.
Desde o início das investigações sobre a suposta venda de decisões judiciais, os advogados de Divoncir Maran e de familiares negam qualquer participação em esquema de venda de sentenças ou lavagem de dinheiro.

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