Política / Investigação
Riedel cobra explicações de Flávio Bolsonaro sobre pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro
Governador de Mato Grosso do Sul defende transparência sobre financiamento de filme ligado a Jair Bolsonaro e diz que CPI pode ajudar a esclarecer fatos
15/05/2026
15:00
DA REDAÇÃO
Flávio Bolsonaro e Eduardo Riedel, em Campo Grande, em 10 de abril, na sede do PL ©Marcelo Victor
O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), afirmou que cabe ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esclarecer, de forma transparente, sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A declaração ocorre após a divulgação de um áudio em que o parlamentar pede mais recursos para concluir o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Aliado político de Flávio Bolsonaro, apontado como pré-candidato à Presidência da República nas próximas eleições, Riedel disse que o senador precisa explicar publicamente o que ocorreu e qual era a natureza das tratativas com o banqueiro.
“Agora cabe ao candidato Flávio esclarecer os fatos com muita transparência, com muita assertividade, o que aconteceu, o que está em andamento. Eu acho que este é um dever dele como pré-candidato”, afirmou o governador.
Ao comentar o caso, Eduardo Riedel também citou o ambiente de disputa política e disse que episódios envolvendo suspeitas acabam se transformando em uma “guerra de narrativas”. Para ele, é necessário olhar para os fatos antes de conclusões definitivas.
“Qualquer fato que envolva suspeita, que envolva discussão, vira uma guerra muito mais de narrativa do que dos fatos em si. Eu acho que a gente tem de olhar os fatos”, declarou.
O caso ganhou repercussão após o site The Intercept Brasil divulgar, na quarta-feira, 13 de maio, um áudio atribuído a Flávio Bolsonaro em que ele pede dinheiro a Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”.
Segundo a reportagem citada no material, o dono do Banco Master já teria repassado mais de R$ 60 milhões ao projeto. Após a divulgação dos áudios, Flávio Bolsonaro admitiu ter negociado com Vorcaro investimentos para custear as gravações da produção sobre Jair Bolsonaro.
A reportagem apontou que o valor total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Ainda conforme as informações divulgadas, atrasos nos repasses restantes teriam motivado mensagens de cobrança enviadas por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. Em uma delas, supostamente enviada um dia antes da primeira prisão do banqueiro, o senador trata Vorcaro como “irmão” e afirma: “Estou e estarei contigo sempre”.
Questionado sobre os desdobramentos do caso, Eduardo Riedel afirmou que os pontos envolvendo a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro precisam ser esclarecidos. O governador também declarou apoio à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), caso o instrumento ajude a apurar os fatos relacionados ao Banco Master.
“Até onde eu vi, também tem um pedido de uma CPI do Banco Master. Se for para ajudar a esclarecer os fatos, que seja”, afirmou.
Na sequência, o governador voltou a dizer que o debate político em período pré-eleitoral tem sido marcado por narrativas que, segundo ele, dificultam a compreensão dos fatos.
“Só que, no ambiente pré-eleitoral, as narrativas vêm predominando, né? Mídia social, narrativa de A, de B, de C. Isso não ajuda em nada no esclarecimento dos fatos e só confunde a opinião pública”, completou Eduardo Riedel.
A polêmica envolvendo o Banco Master também está relacionada a investigações sobre fraudes em operações financeiras, especialmente na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e debêntures com lastros considerados inflados ou inexistentes.
Segundo o material, a instituição enfrentou reestruturações regulatórias e auditorias após a identificação de manobras contábeis que teriam mascarado rombos bilionários e inflado artificialmente o patrimônio líquido do banco.
O caso atinge, principalmente, Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), fundos responsáveis pela aposentadoria de servidores públicos municipais e estaduais. Gestores desses fundos teriam sido atraídos por promessas de alta rentabilidade e aplicado recursos previdenciários em fundos de investimento estruturados pelo banco ou por parceiros.
Parte desses fundos, conforme a apuração citada, teria destinado mais de R$ 60 milhões ao filme sobre Jair Bolsonaro, com envio de recursos para uma conta no Texas, nos Estados Unidos, administrada pelo advogado ligado ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
Em Mato Grosso do Sul, o calote estimado nos regimes próprios de previdência de prefeituras e institutos municipais chega a R$ 15,7 milhões. Os recursos teriam sido aplicados principalmente em Letras Financeiras e títulos estruturados da instituição, com vencimentos longos previstos para 2033 e 2034.
Entre os valores apontados estão R$ 7 milhões em Fátima do Sul, R$ 3 milhões em São Gabriel do Oeste, R$ 2,5 milhões em Jateí, R$ 2 milhões em Angélica e entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,4 milhão no Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG).
Embora os valores sejam menores que os rombos registrados em estados como Rio de Janeiro e Amapá, o impacto para os municípios sul-mato-grossenses é considerado relevante, especialmente em cidades pequenas, onde perdas desse porte podem comprometer o equilíbrio atuarial dos fundos previdenciários.
A consequência prática pode ser a necessidade de aportes extraordinários pelas prefeituras e revisões nas contas previdenciárias para assegurar o pagamento futuro das aposentadorias dos servidores municipais.
As investigações também apontam suspeitas de conflito de interesses e falhas ou fraudes na avaliação de risco dos produtos financeiros. Segundo a apuração, o banco emitia papéis de baixa qualidade, agências de classificação de risco validavam os ativos e consultorias recomendavam a compra aos institutos de previdência.
Esse conjunto de operações teria provocado um efeito cascata de inadimplência, com congelamento de resgates e perdas para fundos de pensão. O caso também acendeu alerta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e na Polícia Federal sobre o uso de instituições financeiras de médio porte para atingir patrimônio público previdenciário.
Diante da repercussão política e financeira, Eduardo Riedel defende que a apuração avance com transparência. Para o governador, Flávio Bolsonaro precisa explicar a relação com Daniel Vorcaro, enquanto eventuais investigações parlamentares ou institucionais devem contribuir para esclarecer o alcance das operações envolvendo o Banco Master.
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