Economia / Energia
Petróleo deve seguir sob tensão mesmo após reabertura parcial do estreito de Hormuz
Mercado reage à decisão do Irã, mas analistas apontam que riscos logísticos e impasse com os EUA ainda devem sustentar forte instabilidade nas cotações
18/04/2026
07:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A reabertura do estreito de Hormuz, anunciada pelo Irã nesta sexta-feira (17), aliviou parte da pressão imediata sobre o mercado internacional de petróleo, mas não foi suficiente para dissipar o clima de incerteza que ainda domina o setor. A avaliação de analistas é de que os preços da commodity devem continuar sujeitos a oscilações intensas nos próximos meses, diante das dúvidas sobre a retomada efetiva da navegação e do impasse diplomático entre Teerã e Washington.
A via marítima tem peso estratégico para o abastecimento global. Cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito passa pelo estreito, o que transforma qualquer restrição no local em fator imediato de impacto sobre preços, fretes, seguros e expectativas do mercado. Mesmo com o anúncio iraniano, a liberação foi cercada de condicionantes, como a exigência de autorização por parte de Teerã, ponto que não é reconhecido pelos Estados Unidos.
No mercado internacional, a notícia provocou queda nas cotações nesta sexta. O barril recuou para a faixa de US$ 86, enquanto o Brent, referência global, encerrou o dia em US$ 91,57, com baixa de 7,87% e no menor nível desde 10 de março. Ainda assim, o movimento foi interpretado mais como uma reação imediata do que como sinal de normalização consolidada.
O chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que a passagem de embarcações comerciais foi restabelecida durante o restante do cessar-fogo. Ao mesmo tempo, um integrante do regime ouvido pela Reuters declarou que até navios norte-americanos poderiam circular, desde que seus planos fossem coordenados com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Apesar disso, a retomada está longe de ser vista como plena pelo mercado.
Especialistas ouvidos na reportagem afirmam que a reabertura deve ser recebida com cautela. O economista James Reilly, da Capital Economics, observou que a medida representa um passo relevante, mas ainda limitado. Já Carsten Brzeski, diretor global de macroeconomia do ING, ponderou que seguradoras e armadores continuam receosos, o que pode retardar a volta do fluxo normal mesmo com a rota formalmente liberada.
Esse receio já aparece na prática. A Hapag-Lloyd, uma das maiores empresas de navegação do mundo, informou que ainda avalia o cenário e que, por enquanto, continua evitando o trajeto pelo estreito. O posicionamento reforça a leitura de que o anúncio político não basta, por si só, para restabelecer a confiança operacional em uma das principais artérias energéticas do planeta.
Dados do setor mostram a dimensão do problema. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, cerca de 200 navios passaram pelo estreito, volume muito inferior à média anterior ao conflito, de 140 embarcações por dia. Segundo a empresa Kpler, aproximadamente 900 navios ficaram retidos no Golfo Pérsico ao longo da guerra. Também nesta semana, três petroleiros iranianos deixaram a região pela primeira vez desde o endurecimento do bloqueio norte-americano.
No Brasil, a queda do petróleo teve reflexos imediatos no mercado financeiro. A Bolsa brasileira recuou 0,55%, aos 195.733 pontos, enquanto o dólar caiu 0,18%, cotado a R$ 4,983. As ações preferenciais da Petrobras encerraram o dia com baixa de 4,85%, depois de chegarem a recuar 7,6% na mínima. Outras companhias do setor, como Prio, PetroRecôncavo e Brava, também registraram perdas relevantes.
Para o especialista em energia Bruno Cordeiro, da StoneX, ainda não há base para afirmar que o mercado entrou em trajetória de estabilidade. Segundo ele, a retomada dos fluxos depende não só de segurança no corredor marítimo, mas também de sinais mais firmes nas negociações entre Estados Unidos e Irã. A leitura é semelhante à do consultor Otávio Araújo, da Zero Markets Brasil, e do economista André Valério, do Inter, que veem um ambiente ainda marcado por cautela e por dificuldades concretas de oferta.
A avaliação predominante é que, mesmo com a reabertura anunciada, a normalização logística no golfo Pérsico não será rápida. O mercado continua monitorando não apenas as decisões diplomáticas, mas também a disposição real de armadores, seguradoras e operadores em voltar a usar a rota. Até lá, a expectativa é de continuidade da volatilidade, com reflexos diretos sobre os preços do petróleo e sobre os mercados acionários ligados ao setor de energia.
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