Agronegócio
Pecuária de corte entra em fase de inflexão e exige estratégia redobrada do produtor rural
Análise da Famasul aponta reação gradual dos preços, com oferta ainda elevada e margens pressionadas em parte da cadeia
27/01/2026
15:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Análise técnica do Departamento Técnico da Famasul indica que Mato Grosso do Sul vive um momento de transição do ciclo pecuário, deixando para trás a fase de baixa e avançando, de forma gradual, em direção a um cenário de recuperação. O período é marcado pela reação dos preços, enquanto a oferta de animais segue elevada, reflexo das decisões produtivas tomadas nos últimos anos.
Segundo a entidade, o mercado apresenta sinais positivos, mas ainda exige cautela e planejamento, já que as margens permanecem pressionadas em parte da cadeia produtiva, especialmente nos sistemas de recria e engorda.
Nos sistemas de cria, o cenário já se mostra mais favorável. A valorização do bezerro melhora a rentabilidade e aponta perspectivas mais positivas no médio prazo. Ainda assim, a retenção de fêmeas deve ser analisada com critério, sobretudo em propriedades com limitações de capital, estrutura ou pastagem.
Já nos sistemas de recria e terminação, o momento é mais desafiador. O aumento no preço dos animais de reposição ocorre antes da valorização plena da arroba do boi gordo, comprimindo as margens. Esse descompasso, segundo a Famasul, é característico das fases de transição do ciclo pecuário.
De acordo com a análise, o Estado já superou o fundo do ciclo — período marcado por preços deprimidos e descarte acelerado de matrizes —, mas ainda não ingressou plenamente na fase de alta, que pressupõe redução consistente no abate de fêmeas e recomposição mais clara do rebanho.
“O cenário atual é compatível com uma fase de inflexão, em que os preços começam a reagir antes que as mudanças biológicas na oferta se materializem plenamente”, explica Diego Guidolin, consultor em pecuária do Departamento Técnico da Famasul.
Entre 2019 e 2021, a pecuária viveu um período de preços elevados da arroba e dos animais de reposição, o que estimulou a retenção de fêmeas e a expansão do rebanho. A partir de 2022, houve aumento expressivo no abate de fêmeas, com participação próxima ou superior a 49% do total, patamar historicamente associado às fases de baixa do ciclo.

Esse movimento contribuiu para a redução do rebanho estadual, que caiu de mais de 20,5 milhões de cabeças em 2017 para cerca de 17,2 milhões em 2023.
Nos últimos dois anos, os indicadores passaram a sinalizar mudança de tendência. Em 2024 e 2025, embora o abate de fêmeas ainda se mantenha elevado, observa-se estabilização e leve recuperação do rebanho, além da valorização da arroba do boi gordo, que atingiu R$ 306,93 (dados até novembro).
O preço do bezerro também voltou a subir, alcançando R$ 2.658,03, sinalizando expectativa de restrição futura na oferta de animais de reposição.
“Mesmo antes de uma redução expressiva no abate de fêmeas, o encarecimento da reposição indica mudança de percepção dos agentes de mercado, o que historicamente antecede a consolidação da fase de alta do ciclo”, observa Guidolin.
Nas fases de transição e de alta, os preços tendem a melhorar, mas também se tornam mais voláteis, sujeitos a oscilações influenciadas por oferta momentânea, exportações e cenário econômico internacional.
Nesse contexto, a estratégia de comercialização torna-se central para a sustentabilidade da atividade. No mercado físico à vista, o risco das oscilações recai integralmente sobre o produtor. Já os contratos a termo oferecem previsibilidade ao fixar preço, quantidade e data de entrega.
O mercado futuro permite proteção contra quedas de preço por meio de hedge, enquanto as opções funcionam como um seguro de preço mínimo, garantindo ao produtor o direito de vender a arroba por um valor previamente definido.
Essas ferramentas são especialmente relevantes para os sistemas de recria e engorda, mais expostos ao aumento dos custos de reposição. Ao alinhar custos e preços de venda, o produtor reduz riscos e ganha previsibilidade.
“O produtor que interpreta corretamente o ciclo e ajusta sua estratégia produtiva e de comercialização tende a atravessar esse período com mais segurança e competitividade”, reforça o consultor da Famasul.
O momento exige maior profissionalização na gestão de preços. O cenário abre oportunidades, mas demanda planejamento, análise técnica e uso consciente das ferramentas de mercado, preparando o produtor para as próximas fases do ciclo pecuário.
O Sistema Famasul publica mensalmente o Boletim Técnico da Bovinocultura de Corte, reunindo indicadores estratégicos como cotações, valor médio da arroba, abates, giro sanitário e evolução do rebanho, oferecendo subsídios técnicos para a tomada de decisão no campo.
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