Campo Grande (MS), Terça-feira, 14 de Julho de 2026

Artigo / Opinião

Projeção indica que 30% dos eleitores podem não votar em 2026

14/07/2026

14:15

Antonio Ueno*

©REPRODUÇÃO

As eleições de 2026 trazem um preocupante sinal de alerta vermelho: o eleitorado está abandonando as urnas. Projeções alarmantes indicam que a soma de abstenções, votos brancos e nulos pode alcançar a impressionante marca de 30% do eleitorado neste pleito.

Esse fenômeno reflete o esgotamento de um cidadão sufocado por corrupção e impostos — que fazem o histórico “quinto dos infernos” colonial parecer modesto — enquanto assiste ao crescimento contínuo do patrimônio da classe política. “Sem jogador, não há jogo”, e o risco real é produzirmos “meios-representantes”, eleitos por minorias e sem legitimidade real para governar.

Esse distanciamento é fruto direto de uma das piores safras de representantes públicos do país, onde a corrupção sistêmica e a polarização extrema empurram o cidadão de bem para fora do debate. O crescimento de votos brancos e nulos funciona como um protesto ativo de quem se recusa a legitimar candidatos que não o representam.

Por outro lado, a abstenção crescente escancara barreiras logísticas e sociais dramáticas. Trabalhadores migrantes e populações de baixa renda muitas vezes não têm recursos para o transporte até suas zonas eleitorais, fazendo com que as urgências da sobrevivência diária e o desinteresse crônico se sobreponham ao dever de votar.

Os dados oficiais das urnas comprovam essa escalada de apatia. Nas eleições gerais de 2022, o Brasil registrou uma abstenção média superior a 20% em ambos os turnos. Em Mato Grosso do Sul, o cenário foi ainda mais grave, com a ausência superando os 22% e acumulando mais de 48 mil votos inválidos no primeiro turno presidencial.

O colapso da participação, contudo, consolidou-se nas eleições municipais de 2024. Em Campo Grande, a abstenção saltou de 25,50% no primeiro turno para alarmantes 28,60% no segundo turno. Somando-se as ausências aos votos brancos e nulos, mais de um terço de todo o eleitorado da capital sul-mato-grossense simplesmente se recusou a escolher um prefeito ou uma prefeita.

Essa curva ascendente de desinteresse põe a nossa democracia em xeque. Quando o cidadão comum abre mão de sua única ferramenta de mudança por cansaço, quem perde é a sociedade, abrindo espaço para que o poder continue concentrado nas mãos de quem legisla em causa própria.

Se as lideranças políticas não resgatarem a ética e não entregarem resultados concretos ao contribuinte, o espetáculo das urnas vazias continuará. O jogo democrático precisa de eleitores ativos, mas, infelizmente, eles estão abandonando o campo.

“Perder a fé na política não é falta de cidadania; é o resultado óbvio de assistir aos mesmos erros sendo cometidos por rostos diferentes.” José Eduardo Agualusa

*Cientista Político


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