Campo Grande (MS), Domingo, 21 de Junho de 2026

Política / Investigação

Empresa ligada a Ciro Nogueira vende fazenda de R$ 18,7 milhões a offshore dos Emirados

Negócio envolve empresa aberta dois meses antes da compra e representada por advogado que atua para companhia associada ao senador

21/06/2026

07:15

DA REDAÇÃO

©ARQUIVO

Uma empresa ligada ao senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, vendeu uma fazenda avaliada em R$ 18,7 milhões no município de Pedro II, no Piauí, para uma offshore registrada nos Emirados Árabes Unidos. A operação, formalizada em 27 de março de 2025, envolve a Arraf International, empresa criada dois meses antes da compra e sediada em uma zona franca próxima a Dubai.

A escritura aponta que a compradora foi representada por Gustavo Frazão, advogado que atua em mais de 20 processos para outra empresa relacionada ao senador, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis. A offshore tem endereço em uma caixa postal na zona franca do aeroporto de Sharjah, área conhecida pela baixa transparência no registro de sócios. Pelas regras locais, não há divulgação pública do beneficiário final da empresa.

A propriedade vendida pertenceu à Fazendas Reunidas Nogueira Lima. Segundo Ciro Nogueira, a empresa é de sua mãe, Eliane Nogueira Lima, prefeita de Teresina. No entanto, dados da Polícia Federal citados nas investigações apontam que o senador detém 99% do capital da companhia. Na escritura, a empresa vendedora foi representada por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do parlamentar.

A transação ocorreu em meio a uma investigação da Polícia Federal que apura supostos repasses feitos ao senador por empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. De acordo com os investigadores, Ciro Nogueira teria recebido ao menos R$ 6 milhões em 2024 e 2025 por meio de companhias associadas a ele. O parlamentar nega irregularidades.

Além da venda da fazenda, documentos levantados no caso apontam outras operações patrimoniais envolvendo empresas relacionadas ao senador. Uma delas trata da venda de um apartamento de 134 metros quadrados no Itaim Bibi, em São Paulo, por R$ 1,4 milhão, em 9 de outubro de 2025, da CNLF para a Fazendas Reunidas Nogueira Lima. A CNLF havia comprado o imóvel em 12 de agosto de 2024 por R$ 650 mil. Segundo a defesa do senador, a diferença de preço se deve a uma reforma, e o apartamento seria usado por sua mãe e por sua irmã.

Outra operação citada envolve a venda de um apartamento no Jardim Paulista, também em São Paulo, por R$ 6,5 milhões, em abril de 2025. O imóvel, pertencente à CNLF, foi negociado com a Aliqum Participações, empresa controlada por uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, outro território conhecido pela reserva sobre beneficiários finais. A representante da offshore é a Tedax Partners, e o representante legal da empresa no Brasil é o empresário Carlos Santana, apontado como amigo do senador.

A Polícia Federal também investiga Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira, por sua atuação na administração da CNLF, empresa que teria recebido valores ligados ao Banco Master. Os investigadores apontam suspeita de que ele atuaria como intermediário em operações atribuídas ao senador.

O caso ganhou novo peso após operação da Polícia Federal realizada em 7 de maio, como desdobramento das apurações sobre supostas fraudes envolvendo Daniel Vorcaro. Os documentos da investigação descrevem uma relação de proximidade entre o ex-banqueiro e o parlamentar, com menções a hospedagens em hotéis de luxo na Europa, repasses financeiros e pagamento de despesas pessoais, incluindo viagens de jatinho.

Segundo a investigação, valores mensais teriam sido repassados inicialmente na faixa de R$ 300 mil, com indícios de aumento posterior para R$ 500 mil. A PF também apura se, em contrapartida, Ciro Nogueira teria atuado no Congresso Nacional em favor de interesses do Banco Master, inclusive com proposta para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

Por meio de sua assessoria, Ciro Nogueira afirmou que nem ele nem familiares são donos de empresa fora do Brasil. O senador também nega ter recebido dinheiro ilícito e já declarou que é falsa a acusação de que teria reproduzido uma emenda a pedido de Daniel Vorcaro. A reportagem informou que não conseguiu contato com Gustavo Frazão, procurado por telefone e por meio da assessoria da Prefeitura de Teresina.

As investigações ainda estão em andamento. O caso tem impacto político porque envolve um senador com forte influência nacional, empresas familiares, operações milionárias com offshores e suspeitas de atuação parlamentar em benefício de interesses privados.


Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Últimas Notícias

Veja Mais

Envie Sua Notícia

Envie pelo site

Envie pelo Whatsapp

Rede News MS © 2021 Todos os direitos reservados.

PROIBIDA A REPRODUÇÃO, transmissão e redistribuição sem autorização expressa.

Site desenvolvido por: