Política / Justiça
Ciro Nogueira comprou triplex de R$ 22 milhões antes de apresentar emenda ligada ao Banco Master
Polícia Federal investiga relação entre aquisição de imóvel de luxo, sociedade com Daniel Vorcaro e proposta que ampliava cobertura do Fundo Garantidor de Crédito
09/05/2026
21:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) comprou uma cobertura triplex avaliada em R$ 22 milhões, em São Paulo, pouco antes de apresentar uma emenda legislativa considerada estratégica para o Banco Master. A aquisição do imóvel entrou no radar da Polícia Federal (PF) dentro da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção e fraudes envolvendo o banco e seu controlador, Daniel Vorcaro.
A compra ocorreu em julho de 2024, cerca de três meses após Ciro se tornar sócio de Vorcaro em uma operação empresarial e 26 dias antes da apresentação da chamada “emenda Master”, segundo as informações reunidas na investigação. A proposta previa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, medida que interessava ao banco em meio a uma crise de liquidez.
Na última quinta-feira, 7 de maio, o senador foi alvo de mandados de busca e apreensão na quinta fase da Operação Compliance Zero. A apuração foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), conforme divulgado por veículos nacionais.

O triplex adquirido por Ciro Nogueira tem 514 metros quadrados, três suítes e três vagas de garagem. O imóvel fica na Rua Oscar Freire, na zona oeste de São Paulo, uma das regiões mais valorizadas da capital paulista.
Segundo o material da investigação, a compra foi feita diretamente com a incorporadora RFM, responsável pelo empreendimento. O senador afirmou que a negociação prevê o pagamento dos R$ 22 milhões por meio da entrega de um apartamento no mesmo prédio, avaliado em R$ 8 milhões, além de pagamento parcelado em dinheiro.
Ciro disse ainda que faltariam seis parcelas de R$ 336 mil e mais R$ 6,7 milhões na entrega das chaves. Em sua defesa, afirmou que o imóvel foi negociado com a construtora e pago por sua empresa, a CNLF Empreendimentos Imobiliários.
Em 13 de agosto de 2024, Ciro apresentou uma emenda à PEC nº 65/2023 para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
De acordo com a Polícia Federal, a proposta teria sido elaborada pela assessoria do Banco Master e apresentada de forma integral pelo senador no Senado. Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, capturadas pela investigação, indicariam que o texto teria sido publicado “exatamente” como enviado pelo banqueiro.
A emenda, no entanto, não avançou no Congresso.
A investigação sustenta a suspeita de que Ciro Nogueira teria atuado em favor de Daniel Vorcaro em troca de vantagens econômicas indevidas. Segundo a PF, haveria pagamentos mensais ao senador, por meio de estruturas empresariais ligadas aos investigados.
Mensagens citadas pela apuração indicariam pagamentos de R$ 300 mil mensais relacionados à parceria entre empresas associadas ao caso. A PF também cita relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que, segundo os investigadores, corroborariam a movimentação de recursos.
Uma das empresas mencionadas é a CNLF, apontada como holding patrimonial do senador. O CNPJ estaria em nome de Raimundo Nogueira Lima, irmão de Ciro, e teria sido usado na aquisição do triplex e também em negociação envolvendo uma casa de alto padrão no Jardim Europa, em São Paulo.
Além do triplex, a investigação também cita uma negociação envolvendo uma casa de luxo no Jardim Europa, bairro nobre da capital paulista. O imóvel tem 878 metros quadrados, está em fase final de construção e foi projetado pelo arquiteto Arthur Casas Mattos, conhecido por trabalhos de alto padrão no Brasil e no exterior.
A negociação teria sido feita com o empresário Antônio Rocha Neto, amigo de Ciro e conhecido como Rochinha. Ele afirmou que pretendia morar no imóvel, mas decidiu fazer a permuta após sua família ser vítima de um assalto.
Segundo o senador, a casa deverá ter valor de mercado equivalente ao do triplex, em torno de R$ 30 milhões, quando estiver pronta.
A PF afirma que Ciro teria se tornado sócio de Daniel Vorcaro em abril de 2024, quando a CNLF comprou 30% em ativos da Green Investimentos por R$ 1 milhão. Para os investigadores, as ações teriam valor estimado de R$ 13 milhões, o que representaria uma suposta vantagem negocial de R$ 12 milhões.
Na avaliação da Polícia Federal, essa operação teria ocorrido no mesmo contexto em que o senador atuava no Congresso em pauta de interesse do Banco Master.
Ciro Nogueira nega as acusações. Em manifestação pública, o senador afirmou ser vítima de “perseguição política” e disse que tentam atingir sua honra em períodos eleitorais.
Segundo ele, todas as negociações imobiliárias foram realizadas de forma regular e com recursos declarados. O parlamentar também afirmou que a compra do triplex foi feita por sua empresa e diretamente com a construtora.
O caso se insere na investigação sobre o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após a primeira fase da Operação Compliance Zero. Na ocasião, Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, sob suspeita de fraude bilionária contra o sistema financeiro.
A liquidação do banco gerou impacto direto no FGC, que deverá pagar cerca de R$ 40 bilhões a aproximadamente 800 mil pessoas com investimentos cobertos até o limite de R$ 250 mil.
A apuração tenta identificar se houve relação direta entre:
1. A compra do triplex de R$ 22 milhões
O imóvel foi adquirido em área nobre de São Paulo pouco antes da apresentação da emenda.
2. A sociedade com Daniel Vorcaro
A PF vê suspeita de vantagem econômica em operação envolvendo empresa ligada ao senador.
3. A apresentação da “emenda Master”
A proposta ampliava a cobertura do FGC, medida considerada de interesse do Banco Master.
4. Supostos pagamentos mensais
Mensagens e relatórios financeiros são usados pela PF para sustentar a suspeita de repasses.
5. A atuação parlamentar em favor do banco
Os investigadores apuram se houve contrapartida indevida na apresentação da proposta legislativa.
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