Artigo / Opinião
Irmãos de sonhos, livros e histórias
03/06/2026
12:30
WILSON AQUINO
Rubens e Wilson ©ARQUIVO FAMILIAR
O incentivo à leitura na infância é um dos maiores presentes que os pais podem oferecer aos filhos. Muito além da formação escolar, o hábito de ler ajuda a moldar o caráter, desperta a criatividade, amplia horizontes e influencia diretamente o futuro profissional e humano das pessoas.
Num país onde os índices de leitura ainda estão entre os menores da América Latina, é urgente que famílias, escolas, igrejas e instituições sociais compreendam a importância dessa missão. O gosto pelos livros não nasce por acaso. Ele é cultivado dentro de casa, pelo exemplo, pelo incentivo e pelo ambiente criado pelos pais.
As crianças são naturalmente abertas ao conhecimento, aos valores morais e aos princípios espirituais. Cabe aos adultos aproveitar essa fase preciosa da vida para apresentar-lhes o universo da leitura, da reflexão e do aprendizado. Pequenos hábitos adquiridos na infância podem fazer enorme diferença no futuro, inclusive na linha tênue que muitas vezes separa o sucesso do fracasso.
Quando volto meus pensamentos para os anos dourados de nossa infância em Corumbá, a querida Cidade Branca, reencontro com nitidez dois irmãos inseparáveis sentados diante de livros ainda antes do amanhecer, enquanto a cidade permanecia mergulhada no silêncio da madrugada.

Rubens Aquino e eu fomos privilegiados pelo exemplo de nossos pais, Manoel Dantas de Oliveira e Dair Aquino de Oliveira. Nosso pai, militar da Marinha do Brasil, um baiano corajoso que escolheu Corumbá para construir sua história e formar sua família, ensinou-nos desde cedo o valor da disciplina, da honestidade e do conhecimento.
Todos os dias, rigorosamente às quatro horas da manhã, o velho despertador tocava. Nosso pai se levantava conosco e nos acompanhava à mesa de estudos para ler seus jornais e livros preferidos. Enquanto muitos ainda dormiam, lá estávamos nós, ainda meninos, mergulhados nas páginas da Barsa, em livros de aventuras, romances, ficção e histórias que alimentavam nossa imaginação.
Antes disso, porém, vinham os exercícios físicos no quintal e o tradicional banho gelado para despertar o corpo e a mente. O aprendizado deixava de ser obrigação e passava a ser prazer na medida em que descobríamos novos mundos, personagens e aventuras.
Talvez, sem percebermos, ali estivessem nascendo o jornalista, o professor e o escritor que ambos nos tornaríamos anos depois.
Nosso pai possuía hábitos simples, mas grandiosos. Religiosamente, às 18 horas, sentava-se para ouvir “A Voz do Brasil”. O rádio era uma verdadeira janela para o mundo. E foi justamente naquele velho aparelho que Rubens e eu descobrimos as historinhas infantis transmitidas diariamente, aventuras que mexiam profundamente com nossa criatividade.
Naquele tempo, anos 60, a televisão ainda não havia chegado à nossa querida Corumbá. Hoje percebo que talvez isso tenha sido uma bênção. Sem telas aprisionando nossa atenção, nossa imaginação ganhou asas.
O rádio, os livros e o cinema tornaram-se ferramentas poderosas para libertar nossas mentes e ensinar-nos a criar mundos inteiros dentro da cabeça. Com muito esforço e economizando cada moeda possível, conseguimos montar um pequeno acervo de livros adquiridos pelo antigo sistema de Reembolso Postal.
E como sonhávamos…
Na Rua 21 de Setembro, número 350, nossa casa transformava-se todas as noites num verdadeiro ponto de encontro. Nossos pais e os vizinhos sentavam-se nas cadeiras da calçada interna para conversar sobre a vida, enquanto nós, as crianças, brincávamos e dávamos asas à imaginação.
Meninos e meninas da rua queriam mesmo era ouvir nossas histórias.
Rubens sempre foi extraordinário nisso. Muito melhor do que eu na criação de personagens, nos diálogos, nos mistérios e nos enredos emocionantes. Ele conseguia transformar qualquer pequena ideia em aventuras fantásticas. Bastava ouvir algo no rádio, assistir a um filme no cinema ou ler algumas páginas de um livro para que sua mente criativa começasse imediatamente a construir novos universos.
E eu, fascinado, acompanhava tudo aquilo, aprendendo também a sonhar através das palavras.
Hoje compreendo que não eram apenas brincadeiras de infância. Eram ensaios silenciosos para aquilo que nos tornaríamos na vida adulta: dois irmãos apaixonados pela leitura, pela comunicação e pelas histórias humanas.
A literatura entrou em nossas vidas muito antes de entendermos seu verdadeiro valor. Ela chegou pela disciplina de um pai simples e sábio. Pelo amor de uma mãe dedicada. Pelos livros manuseados ainda com mãos infantis. Pelo rádio que encantava nossas noites. Pelo cinema que ampliava nossos horizontes. E pelas rodas de crianças da Rua 21 de Setembro, onde aprendemos que contar histórias também é uma forma de tocar corações.
Hoje, olhando para trás, percebo que nossa infância foi rica não pelos bens materiais, mas pela abundância de sonhos, princípios, valores e imaginação.
E talvez seja justamente por isso que as lembranças daquela época continuem tão vivas, tão doces e tão eternas dentro de nós.
Mais do que recordar o passado, escrevo este artigo como um apelo aos pais desta geração. Leiam para seus filhos. Incentivem-nos a descobrir o prazer dos livros. Contem histórias. Desliguem um pouco as telas. Criem momentos de convivência, diálogo e imaginação dentro de casa.
Porque crianças que aprendem a amar a leitura dificilmente caminharão vazias por dentro.
Os livros não apenas informam. Eles iluminam caminhos, despertam sonhos e ajudam a construir seres humanos melhores.
*Jornalista, Professor e Escritor
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