Política Nacional
“Tarcisão do asfalto” enfrenta entraves em licitações bilionárias e execução abaixo do previsto no DER
Suspensões determinadas pelo TCE, baixa aplicação orçamentária e atrasos em obras estratégicas ampliam pressão política sobre o governador Tarcísio de Freitas
08/02/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito em 2022 com o discurso de gestor técnico e apelidado durante a campanha de “Tarcisão do asfalto”, chega ao novo ciclo eleitoral sob questionamentos relacionados à execução de obras rodoviárias — área considerada central em sua trajetória política.
Ex-ministro da Infraestrutura no governo federal, Tarcísio construiu sua imagem pública vinculada à capacidade de destravar projetos. No entanto, ao longo dos três primeiros anos de mandato, licitações estruturadas por sua equipe enfrentaram sucessivas suspensões, questionamentos técnicos e readequações determinadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Em 2025, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) aplicou 30,6% do orçamento inicialmente autorizado, o equivalente a cerca de R$ 1,1 bilhão de um total de R$ 3,6 bilhões. Para 2026, o orçamento do órgão foi reduzido para R$ 2,2 bilhões, intensificando críticas sobre a capacidade de execução.
Licitações que somariam mais de R$ 5 bilhões em investimentos foram suspensas ao longo do ano, gerando insatisfação entre prefeitos e parlamentares estaduais que aguardavam obras como vitrine regional.
Diante do desgaste, o governador promoveu, no fim de janeiro, mudanças no comando da área responsável pela infraestrutura rodoviária, buscando reequilibrar a articulação política.
As paralisações ocorreram em meio a questionamentos do setor da construção civil sobre exigências técnicas consideradas restritivas em determinados editais. Processos licitatórios de grande porte foram alvo de análise do TCE, que determinou suspensões para ajustes.
Entre os casos de maior impacto está o edital de R$ 4,3 bilhões para conservação de rodovias estaduais dividido em 30 lotes. O processo foi interrompido em outubro de 2025 e relançado em janeiro, com valor reajustado para R$ 4,7 bilhões. Outra licitação, de R$ 915 milhões, voltada à manutenção e sinalização de rodovias, também foi suspensa.
Em um episódio apontado como falha técnica, o DER contratou, em janeiro de 2025, uma empresa para realizar melhorias em trecho da Rodovia Raposo Tavares que já se encontrava sob concessão privada. O contrato, de R$ 1,8 milhão, foi posteriormente extinto.
Embora o governo cite como marcos a retomada do trecho norte do Rodoanel, além de projetos como o trem intercidades entre São Paulo e Campinas e o túnel submerso entre Santos e Guarujá, parte das intervenções rodoviárias sob responsabilidade direta do DER sofreu atrasos.
Um exemplo simbólico é a obra de cinco quilômetros na comunidade Quilombo dos Bombas, em Iporanga. Prometida em 2023, teve edital lançado apenas em novembro de 2024, suspenso no mês seguinte e iniciada somente em junho de 2025, com previsão de conclusão para o segundo semestre deste ano.
O Estado administra cerca de 9.800 quilômetros de rodovias não concedidas, enquanto aproximadamente 6.800 quilômetros estão sob responsabilidade de concessionárias privadas.
Parte das intervenções estratégicas ocorre em rodovias concedidas, onde o modelo de pedágio eletrônico “free flow” gerou resistência política e levou o governo a recuar da instalação de ao menos dez novos pontos de cobrança em 2025.
Em nota, o governo estadual afirma ter concluído projetos executivos estimados em R$ 3,7 bilhões, abrangendo 363 quilômetros de rodovias, além de reformulado e executado 51 projetos desde 2023 e revisado 76 obras herdadas de administrações anteriores, com economia aproximada de R$ 218 milhões.
Segundo a gestão, o programa SP para Toda Obra reúne cerca de 1.500 projetos, com investimento superior a R$ 30 bilhões em mais de 21 mil quilômetros de vias.
Apesar das dificuldades, aliados de Tarcísio avaliam que o conjunto de entregas estruturais — especialmente o Rodoanel e projetos ferroviários — deverá sustentar sua imagem de gestor técnico.
No entanto, a combinação de execução orçamentária reduzida, suspensões bilionárias e tensionamentos com o setor de infraestrutura amplia o desgaste político em um momento estratégico para o calendário eleitoral.
O desempenho do setor rodoviário, que foi peça central na construção da identidade pública do governador, tornou-se também um dos principais pontos de escrutínio de sua gestão.
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